A rua de todos os brasileiros

Ela recebe de braços abertos cerca de 400 mil frequentadores diários, vindos de todas as partes do Brasil, em busca das mais variadas mercadorias por preços mais baratos, para uso pessoal ou para revenda. São sacoleiros e sacoleiras, donos de estabelecimentos comerciais, vendinhas, lojinhas, camelôs e tudo o que existe em forma de comércio por esse Brasil. Esse número de pessoas quase triplica no período das grandes festas como Natal, Carnaval, Páscoa e datas comemorativas como o dia das mães.

A rua possui um site que conta sua história:
"Por volta de 1850, no lugar da rua havia um rio. Um braço do Rio Tamanduateí, totalmente navegável, recebendo as águas do Rio Anhangabaú e desaguando no Rio Tietê. Até o final do século havia ali também, um Porto, que servia de escoadouro para as mercadorias importadas, que chegavam de navio no Porto de Santos, subiam a serra em carroças e pela estrada de ferro Santos-Jundiaí e alcançavam o Ipiranga. De lá eram levadas, via Tamanduateí, até um porto de barcas, chamado de Porto Geral, daí o nome da Ladeira, quando o rio foi retificado.

Antes de o rio ser retificado e a várzea do Carmo ser drenada, o comércio era comandado pelos imigrantes árabes e ficava na parte de cima da cidade, onde hoje está a Rua Florêncio de Abreu. Com a urbanização posterior a drenagem os aluguéis ficaram muito altos e os que iam chegando foram se instalando na parte baixa.

Chegaram também os bondes e o trecho principal foi então batizado com o nome de 25 de Março. Conta-se que a primeira loja aberta na Rua 25 de Março, em 1887, pertencia a Benjamin Jafet. Nos anos 80, os árabes começaram a ganhar a companhia de gregos, portugueses e principalmente dos coreanos e chineses. Os famosos preços baixos da rua foram uma necessidade, para os comerciantes poderem manter os negócios. Nos anos 60 a Rua sofria grandes enchentes o que fazia os comerciantes perderem muita mercadoria.

Era sempre preciso recomeçar e para isso era preciso dinheiro. Então, passaram a vender tudo o que sobrava a preços bem baixos e à vista. Os comerciantes ali instalados buscavam mercadorias mais baratas e as vendiam com preços sedutores, sempre
à vista. Esta culminou no surgimento de lojas atacadistas na região, onde entravam poucos fregueses, mas que faziam grandes compras, para revender nas demais cidades do Estado e em diferentes partes do País.

Este tipo de comércio surgiu para fazer frente aos vendedores de rua, que compravam nas lojas de atacado da própria 25 de março e revendiam peça a peça com bons lucros".

As lojas da Rua 25 de Março ficaram famosas pela venda de tecidos para estofados e cortinas e os tecidos da moda, importados de fora, para confecção de roupas – cetins, “shantungs”, “chifons”, rendas francesas, rendas “guipures”, tules, algodões – tudo o que era indicado nos figurinos, também importados, que por aqui aportavam e pela moda ditada pelas atrizes de cinema e pelos estilistas franceses.

A Ladeira Porto Geral notabilizou-se pelos aviamentos e complementos para essa moda: botões, fivelas, linhas, agulhas, lantejoulas, vidrilhos, canutilhos, flores, rendas próprias para a execução de finas lingeries e tantas miudezas, de deixar as costureiras maravilhadas.

Eu era uma frequentadora assídua da Rua 25 de Março e também da Ladeira Porto Geral. Comprava tecidos e aviamentos e costurava meus próprios vestidos, varando a noite de sexta para sábado e parte do dia de sábado, para ir aos bailes de formatura e outros tantos, nos clubes da cidade: Homs, Banespa, Aeroporto, Casa de Portugal etc.

Que trabalho me davam os drapeados nos “shifons”, os “godês guarda chuvas” das saias, as aplicações em renda e tantas coisas mais. Os bordados com pedrarias, pérolas e paetês tão em moda! Mas que eu saia repimpando, isso lá eu saia. Preenchíamos as rendas com pérolas, vidrilhos e canutilhos.

Nestas minhas idas às compras eu gostava de almoçar ou comer salgados nos restaurantes árabes e de comer doces nas casas especializadas, que também vendiam doces árabes por atacado e a granel. A mais famosa ainda existe, aliás, é um grande armazém, onde se encontram nozes e amêndoas de todos os tipos, grãos os mais diferentes, confeitos, doces, frutas secas e tanta coisa de dar água na boca. Eu gostava também de olhar as vitrines e sentir o cheiro de incenso que emanava de lojas que vendiam enfeites e roupas vindas do Oriente.

Hoje o comércio mudou bastante, tem muita quinquilharia, brinquedos, bijuterias, papelaria, roupas, tecidos e, infelizmente, muito contrabando e pirataria. Mas ela continua sendo a rua de todos os brasileiros, que aqui aportam em busca de novidades e preços baixos. Saúde e longa vida á Rua 25 de Março.

E-mail: [email protected]