A primeira impressão de São Paulo é a que fica?

Anos 70, Davi, um rapaz simples de dezenove anos, ex-seminarista da cidade de Ponta Grossa, Paraná, foi convidado a tentar a vida em Mato Grosso como contador numa cooperativa numa cidade chamada Maracaju. Quando lá chegou não se adaptou, a cidade era muito pequena pras suas grandes ambições e o trabalho decepcionou as suas expectativas, não estava compensando. Resolveu voltar pra sua cidade natal, porém, na viagem de retorno, decidiu ir visitar sua tia Rosa, que morava em Guarulhos, na cidade de São Paulo.

Desceu do ônibus na antiga rodoviária da Luz, aquela que seria a sua primeira visão em solo Paulistano. Os raios de sol daquela manhã colocavam em destaque a abóbada colorida da estação, o que causou uma boa impressão pra começar. Contudo, ele ainda estava um pouco receoso de deixar a rodoviária e desbravar a grande e temida capital. Respirou fundo e saiu meio ressabiado sem saber em que direção seguiria. Com o endereço da sua tia Rosa em mãos, alguém lhe indicou um ônibus que o levaria até Guarulhos. O coração batia mais forte nesta aventura num lugar desconhecido e com fama dos perigos que toda cidade grande tem.

Chegou lá em Guarulhos todo orgulhoso de seu feito, bradando que São Paulo não era assim tão temerosa e que não lhe pareceu tão grande, enfim, não era o bicho de sete cabeças que lhe haviam dito.

Bom, com a visita feita, era a hora de retornar, e seus primos o levaram para o ponto aonde devia pegar o ônibus que o levaria até a rodoviária. A tia se despediu dando a recomendação para tomar cuidado, afinal ele era um rapaz muito sem malícia, que mal conhecia São Paulo. Davi, por sua vez, disse que não se preocupasse, que da mesma forma que ele havia chegado em Guarulhos ele iria chegar direitinho ao seu destino de volta.

Bom, a viagem de retorno ocorreu sem muita novidade, e Davi admirava a paisagem que se descortinava perante o seu olhar de ex-seminarista. Ruas e mais ruas asfaltadas, prédios e avenidas, tudo uma novidade para aquele rapaz simples do Paraná.

Atendendo a um pedido seu, o motorista o deixou no ponto mais próximo possível da Rodoviária da Luz, ou melhor, assim pensou Davi, pois como já era de noitinha quando desceu no suposto ponto, ele não reconhecia nada do local ao seu redor. O temor tomou conta dele. Desnorteado pela escuridão da noite, não se lembrava da paisagem que havia visto com o sol a pino, e São Paulo naquele momento tomou a proporção de monstro negro, pronto para engoli-lo.

Tentou dar alguns passos, mas o medo tomou conta, olhou pra cima e conferiu a hora num grande relógio que estava acima de sua cabeça, teria que agir rápido, pois seu ônibus saía em meia hora. Apelou para um táxi, disse pra ir o mais rápido possível, pois só tinha meia hora pra chegar na rodoviária, e ainda completou com seu jeito calmo tentando mostrar firmeza: "Sou de Mato Grosso e não gosto que me enrolem", nos altos de seus 1,80 de altura, loiro, olho azul e sotaque carregado de gente do sul. Naquele momento, aterrorizado pelo desconhecido, preferiu ocultar a sua verdadeira cidade natal, pois pensou que dizer que era do Mato Grosso impunha mais respeito. O que deve ter causados risos no motorista.

Enfim, já dentro do táxi, tentou observar o trajeto e as homéricas construções, pois agora São Paulo se tornara a megalópole que ele sempre receou, e naquele exato momento só pensava na sua querida cidade de Ponta Grossa, que ele conhecia na palma da mão, e suspirou de saudades.

A corrida demorou uns vinte minutos e, finalmente, aliviado, botou o pé na calçada que o levaria para o seu ônibus, mas não sem antes dar uma última olhada de despedida pra aquela grande cidade. O coração já estava no ritmo mais calmo e pôde observar que agora o entorno parecia mais familiar. Qual não foi o espanto quando notou, logo do outro lado da rua, o relógio (Julio Prestes) que há vinte minutos atrás o havia alertado para o seu possível atraso. Logo do outro lado da rua!!! Como o motorista de táxi teve coragem de fazer ele de bobo, quando o seu destino estava logo ali??? Ele ainda tinha alertado o taxista pra que não fizesse tal coisa!!! Como ele não enxergou a grande abóbada colorida da Rodoviária, que na luz do dia o fascinou??? Tantas perguntas, sem nenhuma resposta. E na mesma hora sentiu uma grande frustração, pois chegou a pensar que havia conquistado São Paulo. E a decepção o fez olhar aquela capital com um certo ar de desprezo e concluiu que a sua cidade Paranaense era do tamanho certo pras suas expectativas, pois não era tão pequena como a cidade matogrossense e nem tão grande como São Paulo, inacessível pra sua ingenuidade.

Voltou pra sua terra. Entretanto, o irrequieto Davi não demorou muito em terras brasileiras e foi desbravar terras estrangeiras, sem nunca mais pisar em São Paulo, o que continuava a ser um mito.

Os anos foram passando e o destino colocou na sua vida uma Paulistinha, a qual o levou a revisitar aquela cidade monstro, que um dia o decepcionou. Davi, ainda melindrado com a capital, encontrou uma outra São Paulo, muito modificada pelo progresso e, por incrível que apareça, achou-a mais atrativa. Ele começou a enxergar a São Paulo que todos nós amamos, apesar de todos os seus defeitos. Ele percebeu que São Paulo é um monstro que pode ser domado. A imagem sombria e de mágoa se dissipou e agora diz todo orgulhoso: Ah!! São Paulo não é este bicho de sete cabeças que dizem!! Aí eu digo: Davi querido, é que você viu São Paulo pelos olhos de uma Paulistana: eu.

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