Esta história, muito divertida, me foi contada por uma vizinha aqui da Vila Madalena. Um irmão dela, Seu Antonio (nome fictício) foi aposentado compulsoriamente em 2000, no serviço público federal, aos 70 anos bem vividos. Como ele dizia: "depois dos 70 a gente fica descartável!". Todos os dias, às 7 da manhã, tomava o seu café, passava uma vista no jornal, depois ia cuidar dos passarinhos e de suas queridas plantinhas. Costumeiramente, no meio da manhã ia encontrar amigos na pracinha perto de casa. Voltava para o almoço, "tirava uma pestana" e então voltava à pracinha, ficava a bater papo e jogando damas, dominó, etc. Isso ia até quase a hora da janta, quando encerrava suas atividades sociais, como dizia ele. Todo mundo conheceu uma pracinha assim, que estava sempre animada e que hoje em dia só existe nas cidadezinhas do Interior… pois o pessoal desapareceu com medo de assalto!<br>O Seu Antonio tinha uma família numerosa, muitos netos hoje adolescentes. Destes, três moravam na casa ao lado dele, de maneira que estavam sempre por perto, proseando com o avô, a quem recorriam para os trabalhos escolares. Seu Antonio era uma pessoa muito bem informada o que o deixava orgulhoso, afinal, dizia ele, "tinha sido um aluno exemplar no Colégio Roosevelt". Ele até dizia que sabia tanto de tantas coisas que o mais que aprendesse seria cultura inútil… Lia tudo o que lhe caia nas mãos e era craque nas palavras cruzadas até as mais difíceis! E assim corriam os dias, até que o filho vizinho comprou um computador. As crianças logo aprenderam a lidar com o micro e deixaram de recorrer ao avô, deixaram até de visitá-lo, ò pobre! Seu Antonio ficava tão desenxabido quando via os netos no micro, reclamava o tempo todo. Imaginem só, ele, que se gabava de ter presenciado o nascer de quase toda a parafernália tecnológica do século 20, como ele dizia, desde o telefone de manivela(!), o rádio de galena(!), a geladeira de pedra de gelo jogada na porta de casa, a máquina de escrever dita "baronesa", o telex, o xerox, o diabo-a-quatro. Ele era radicalmente contra computadores, tinha preconceito, antipatia, achava que aprender aquilo seria cultura inútil e como estava contrariado com a adesão dos netos àquela "tranqueira", jurou que na sua casa aquilo não entraria jamais. Mas, o tempo, esse senhor da razão, passa… Então vejamos. Um dia, o filho do Seu Antonio veio comunicar que comprara um computador de última geração e que daria ao pai de presente o antigo, "em ótimo estado" e disse mais: que havia feito a matrícula do Seu Antonio num curso de informática para a Terceira Idade. Acrescentou que a escola ficava logo ali, na Heitor Penteado, seria até bom, ele faria caminhadas e baixaria o colesterol! E lá foi o Seu Antonio, contrariado, duas vezes por semana, com aquilo que execrava. "Que desperdício de tempo", bradava e mais indignado ficou porque na turma havia três velhotas muito assanhadas, que na aula sobre Internet, chegaram a acessar uma sala de bate-papo, imaginem, sobre sexo! "Aonde é que nós vamos parar?" O coitado passou a ter insônia e pesadelos com browser, hardware, fax modem, mouse, shift, caps lock… Daí, Seu Antonio largou o cursinho, mentiu que já tinha concluído e o computador que o filho havia entronizado em lugar de destaque na sala da frente, ficou lá, desprezado. "Coisa do demo", falava, e corria para a pracinha. Mas um dia, o filho chegou e foi querendo saber as coisas que o pai já tinha feito no micro. Que coisas? Se ele mal tinha feito uns textos no Word Pad, alguns e-mails e deletava tudo o que aparecia na tela do monitor? O filho berrou: "Pai, o senhor demorou tanto, tanto, que esse micro ficou obsoleto, não presta mais" exagerou para que o pai se tocasse, e saiu batendo os pés. Então o Seu Antonio gritou: "Ah, é? então toma!" e tacou o mouse na parede, catou o boné e foi jogar damas na pracinha. E agora, passado um tempo, eu soube que o Seu Antonio continua firme e forte, mas nem ele nem seus amigos vão mais à pracinha, pois ficam em casa, navegando na INTERNET…<br><br>e-mail do autor: [email protected]