A política da má vizinhança

Os clubes do futebol varzeano tinham ganhos notáveis no período eleitoral. Era o ano em que muitos clubes eram beneficiados pelos candidatos a qualquer cargo, principalmente quando o candidato era para o legislativo.<br><br>Os assessores dos candidatos que concorriam ao executivo não procuravam os clubes. Mas gostavam que seus nomes fossem vinculados aos candidatos do legislativo, que era tido como a tal publicidade casada.<br><br>Os clubes do Itaim Bibi tinham seus candidatos cativos. Nenhum candidato de fora do Itaim Bibi conseguia o apoio dos clubes itayenses, como gosta de dizer o professor Helcias Bernardo, presidente do memorial do Itaim. Tanto o Marechal Floriano, como o Canto do Rio, América, Esplanada, tinham o candidato a deputado estadual Leôncio Ferraz Junior, morador do bairro, como simpatizante de todos os clubes, como convém ao bom político. Seu assessor maior era Matews Gualda, e também seu cunhado Dondoca, responsável pela divulgação do nome do candidato.<br><br>Em 1962, Leôncio era candidato pela primeira vez, e começou meses antes fazendo uma campanha tímida. Sua primeira aparição coletiva foi na fábrica de chocolates Kopenhagen, oferecendo sanduíches de mortadela e guaraná a todos os funcionários, maioria absoluta de mulheres, dentre as quais minha irmã. Quando a eleição estava próxima, o comitê do Leôncio, na Rua Joaquim Floriano, encostado à farmácia do seu Brandão, ficava cheio de gente querendo emprego público, ou alguma outra coisa em troca do voto. Quem mais ficava no comitê era a esposa do candidato, dona Marta, uma mulher bonita e que tratava as pessoas com muita educação. Como a gente a conhecia mesmo fora do período eleitoral, podemos dizer que sua educação e amabilidade eram normais, mesmo nos dias em que nem se falava em eleição. Sua maneira de ser até despertava alguma desconfiança de fofoqueiros dos casamentos alheios. Mas ela era de uma conduta ilibada. Seu sorriso causava inveja às mulheres da época.<br><br>No dia da eleição, a frota de choferes de praça estava toda à disposição do candidato Leôncio, um janista inveterado. Os jogadores e diretores dos clubes já citados eram os distribuidores de cédulas e santinhos com a efígie do candidato, que ficava no meio da foto, tendo Carvalho Pinto e Jânio Quadros, um de cada lado, e a vassoura como ornamento político. Quem não queria ir votar de ônibus ou a pé podia recorrer aos carros de praça à disposição dos eleitores. Era só dar o nome e o número do título.<br><br>Eu votava no grupo escolar Mário de Andrade (Brooklin). Todos os eleitores que iam votar até Santo Amaro iam no mesmo carro, estávamos em seis, contando com o motorista. Eu sempre com a mania de pesquisar, perguntei a todos em quem iam votar. Dois disseram Jacinto Figueira Junior (o homem do sapato branco), outro em Farabulini Junior, que era da Mooca, um outro e o motorista no próprio Leôncio. E eu ia votar em Aurélio Campos, que morava perto da minha casa. Rua Geórgia (Brooklin). Inclusive fui a sua casa buscar panfletos da sua candidatura.<br><br>A cédula era única pela segunda vez. Era uma cédula que diferenciava daquela que já tinha o nome do candidato o do partido impresso. A gente é que escrevia o nome do candidato. Ao final da eleição havia o desfile dos carros de praça por todo o Itaim, pelas ruas do bairro, em gritos da vitória com o espocar de fogos. Era antecipadamente a certeza da vitória, que depois da contagem dos votos era confirmada.<br><br>Leôncio, anos mais tarde, foi cassado por ser do partido contrário ao do governo. Um dia encontrei com ele no Jockey Clube, e perguntei a respeito disso. Entre outras coisas ele me disse: Foi até bom, porque não vai mais ninguém me encher o saco na porta da minha casa pedindo favores.<br><br>No ano seguinte (1963) era a vez da eleição para vereador, eu já tinha experiência de cabo eleitoral, pois em 1959 trabalhei para Milton Peruzzi, um cronista esportivo que usava o Palmeiras como seu símbolo esportivo eleitoral. Eleição em que o "candidato" Cacareco teve aproximadamente cem mil votos. E o vereador mais votado, Manoel Figueiredo Ferraz, coisa de pouco mais de dez mil.<br><br>Nesse ano da graça de 1963, eu era diretor do grêmio recreativo Flamengo da Vila Olímpia, meu eterno bairro do coração. O Flamengo era o mais popular time da Vila. Quando ia jogar no campo do adversário, além do caminhão de jogadores onde cabiam muitos torcedores, ia também mais dois caminhões de torcedores. Sendo assim, era um clube sondado por políticos candidatos a deputado e vereador. <br><br>No ano anterior, 1962, para deputado estadual o Flamengo apoiou Carlos Kerlakian, um lojista do setor calçadista que fazia propaganda nos programas do Silvio Santos na Rádio Nacional, que dentre outras coisas exigia que fizéssemos um show da caravana do Peru que fala. O que foi feito com muito sucesso, inclusive com a vendagem do carnê do Baú da Felicidade, ainda em seu início, com quatro anos de vida. <br><br>Dentre as coisas normais que oferecia o candidato tinha ainda a promessa de 400 mil cruzeiros que os deputados tinham como verba de representação. Ele foi eleito e depois, quando tomou posse, fomos ao palácio dos deputados no parque Dom Pedro, receber os 400 mil, e nos deram um cheque de 40 mil, uma quantia irrisória na época. Ficamos bravos e nos disseram que era aquilo ou nada. Então eu disse: – Malvino, eles nos dão o cheque de 40 mil e vão lançar 400, o resto vai para o bolso deles. O negócio é não receber. Malvino pegou o cheque, falou dois palavrões e corajosamente rasgou. <br><br>No ano de 1963, recebemos a visita de um ilustre desconhecido se dizendo candidato a vereador, que ficou sabendo da popularidade do clube. Seu nome: Paulo Amparo. Um cara de seus, quando muito, 40 anos, boa pinta, que só de moçoilas ávidas em votar na fisionomia bonita ia lhe render muitos votos.<br><br>De início ficou marcada uma reunião em sua casa, Rua Tabapuã, Itaim Bibi, perto da Avenida São Gabriel, bem em frente à casa onde morava o primeiro prefeito negro de São Paulo, o ademarista Paulo Lauro. Aquela casa que tinha o telhado preto.<br><br>Toda a diretoria do Flamengo se fazia presente, para minha surpresa, pois todos eram analfabetos políticos. Lá foram o presidente Jesuíno (seu Gê), o vice, Celestino da Costa, (o leiteiro), segundo vice, Celestino padeiro, diretor esportivo, Malvino Pereira, segundo secretario José Ignácio Alves, diretor adjunto, Gavião, e o secretario geral, eu.<br><br>Durante a reunião, que durou mais de duas horas, aproveitei para fazer meu brilharéco, coisa planejada tentando mostrar meus "conhecimentos" políticos. Chegamos a ter uma discussão ríspida, eu e o candidato. <br><br>Ele ademarista, e eu janista. Ao final da reunião ele pediu licença para escolher um membro da diretoria para representar o clube, já que não queria falar com todos para não dar confusão de idéias. Com a concordância dos diretores ele disse: Eu escolho o Mário Lopomo.<br><br>Dirigiu-se à biblioteca e antes de pegar um livro perguntou se eu era universitário. Com a resposta negativa, se espantou, dizendo que tinha certeza que eu era. Pegou o livro, autografou e me deu. O título do livro era: Um Brasileiro na Rússia.<br><br>O doutor Paulo Amparo era chefe do cerimonial do palácio dos Campos Elíseos, sede do governo de São Paulo, que tinha o doutor Adhemar de Barros como governador.<br><br>Passei a ser seu companheiro de viagens por toda a cidade de São Paulo, ele ia em muitas secretarias, uma das quais a da educação, que me lembro ser perto do estádio do Pacaembu, lá no alto, Rua Itápolis ou uma paralela.<br><br>O secretário da educação era um padre. Se minha memória não estiver falhando, era o Padre Baleeiro. Enquanto estava no carro, vinha padre de todo lado, chegando na secretaria, na certa eram assessores. Ficava pensando: Nossa, quanto vagabundo vestido de preto (batinas). Lembro também da presença do deputado Blota Junior, que veio perguntar se eu estava com o Paulo Amparo.<br><br>Nas andanças com o candidato conversávamos sobre muita coisa relacionada à política, e dava para perceber que ele tinha bons propósitos na apresentação de projetos, dentre os quais me lembro de um que era a colocação de um sanitário nos banheiros públicos a ficar na altura de uma criança, para não esbarrar seu pênis e pegar bactérias. Um dia ele me perguntou se eu sabia escrever a máquina. Quando soube que não, me disse para fazer um curso, mesmo que rápido, pois ele tinha trinta nomeações do doutor Adhemar de Barros, e uma seria minha. Não precisa aprender muito, pois não vai fazer muita coisa. Na certa seria eu mais um barnabé vagabundo a mamar nas tetas do erário público.<br><br>Agora, a coisa pegou feio quando ele falou que eu tinha que colocar paletó e gravata para ir ao palácio conhecer o governador Adhemar de Barros. Doutor Paulo, além de me mandar por paletó e gravata, ainda terei que conhecer o Adhemar?<br><br>Mário, paletó e gravata são obrigatórios no palácio. E o doutor Adhemar é boa gente, você vai gostar.<br><br>Não queria ir de jeito nenhum, mas como havia muita insistência, concordei. Tá bom, eu vou mais para conhecer o palácio. Tinha uma enorme antipatia pelo Adhemar, que era chamado pelos adversários de corrupto e asqueroso.<br><br>No dia marcado eu estava lá, entrando pelo portão do palácio junto com o meu candidato, que entrou portão adentro sem mostrar documentos, pois era praticamente morador do palácio. Estava havendo uma reunião que era a que antecedia a nossa, então fui andar pelo jardim e conhecer primeiro o palácio por fora. Por onde eu andava, dois "meganhas" andavam atrás de mim, um pouco à distância. Sabia que eles estavam me vigiando.<br><br>Resolvi abortar o passeio pelo jardim. Doutor Paulo, rindo, me perguntou se eu já tinha conhecido todo o palácio. Que nada, disse eu. Tinha dois fdp atrás de mim, por onde andava.<br><br>Como todos, "os cupinchas" do homem, eu também estava lá, num salão enorme, o tal salão vermelho, com uma mesa enorme com mais de vinte careiras de espaldar com o brasão no estado. De jovem tinha somente eu.<br><br>A maioria eram velhos e alguns mais novos. Enquanto o pessoal se ajeitava nas cadeiras, tinha uma loira conversando com o Adhemar, bem pertinho de mim, que estava de pé, pois todas as cadeiras estavam ocupadas pela velharia. Com o ouvido tinindo ouvia toda a conversa da bonita loira de nome Odete, que estava já cansada de ouvir a promessa de emprego que não saía.<br><br>Adhemar falava: – Calma, Odete, os homens estão em cima de mim. Deixa a coisa acalmar que seu emprego vai sair, acredite em mim.<br><br>Quando todos estavam calmos e o barulho de arrastar cadeiras tinha cessado, Adhemar se levantou, olhou para todos os lados e me viu de pé. Não deixou de me dirigir umas palavras.<br><br>- É garoto, não sobrou uma cadeira para você, mas se quiser pode se sentar no chão.<br><br>Confesso que foi um bálsamo para mim. Toda aquela antipatia que tinha pelo Adhemar instantaneamente virou simpatia. E a reunião foi totalmente adversa a que eu imaginava. Palavras chulas eram proferidas por alguns, acredito que já eram conhecidos do velho Adhemar, como diziam eles. Teve um que pediu a palavra e disse: Doutor, sabe o Chico? Ele mudou de lado, é um traidor. No que respondeu o governador: Que filho da…!<br><br>Quando saímos, o doutor Paulo me perguntou se tinha gostado da reunião, e o que eu achava do Adhemar. Confessei que tinha ficado com simpatia dele. Adhemar era uma figura carismática. Quando ele foi cassado, a 16 de junho de 1966, um domingo à noite, estava eu num bar comendo um sanduíche, já às 22 horas, e o rádio anunciava sua cassação. Eu ouvia também o deputado estadual Paulo Planet Buaruqe falar de satisfação pela atitude do governo militar, se aproveitando para pisotear o "derrotado".<br><br>Confesso que me emocionei, porque Adhemar tinha seus defeitos, mas era um democrata, e quando o governo militar não cumpriu com a palavra de devolver o país à democracia, Adhemar, mesmo sabendo o que ia acontecer, não "mijou pra trás", ele ficou para a história.<br><br>A campanha ia indo muito bem, algumas das promessas do candidato tinham sido cumpridas, as camisas e todo o uniforme novinho já estava pronto e ia estrear no festival que seria promovido pelo Flamengo para divulgar mais o nome do candidato. As camisas eram lindas, listras em vermelho e preto em sentido horizontal, de mangas compridas com a numeração em algarismo romano, coisa inédita na várzea.<br><br>Quando a campanha estava pela metade, recebemos um outro político que não me lembro nome, procurou os diretores do clube querendo também o apoio. Foi lhe dito que quem tinha essa responsabilidade era eu. E lá veio o homem me pedir o apoio do clube. Disse que o clube já estava apoiando outro candidato. Ele disse que isso não importava a ele, que cobria o que o candidato nos dava e o clube trabalhava para ele por baixo. Dizia que para o clube era bom, pois teria um lucro maior. Disse-lhe com todas as letras que isso jamais eu faria. Mesmo assim, ele insistiu com o presidente e o diretor esportivo, que disseram a ele que resolveriam na reunião de quarta-feira – estávamos num domingo.<br><br>Por incrível que pareça, balançou a cabeça dos dirigentes pela ganância de ganhar mais. Um diretor disse: Olha, gente, os políticos são todos sem vergonhas, vamos ser com eles também. Aí eu disse que, se fosse aprovado apoiar mais um, eu estaria fora. Então todos calaram a boca e tudo continuou como estava.<br><br>O nosso candidato não foi eleito, mas mesmo assim minha nomeação estava de pé. Mas meses depois veio o golpe militar e minha nomeação foi para as calendas.<br><br>e-mail do autor: [email protected]