A pedra da calçada

Minha infância e juventude se deram no Ipiranga. Em frente à nossa casa havia uma pedra, retangular, na altura certa para ser usada como um banco e, claro, foi isso que aconteceu.<br><br>Durante muitos anos aquela pedra foi testemunha de conversas, leitura diária de notícias de jornais, namoros, brigas, brincadeiras de crianças, reflexões, etc. <br><br>O nono tinha um lugar cativo nela. Lia o jornal diariamente, acendia sua pipa e discutia com os amigos os acontecimentos do dia.<br>Nós, as crianças tínhamos a tarde para brincar nela. E os namorados… Esses trocavam suas juras à noitinha, sempre com hora marcada para se recolher. Por vezes presenciávamos uma discussão e a pedra servia de tribuna para ajudar a esclarecer o motivo da desavença. Era um privilégio ter esse espaço na porta de casa.<br><br>Mas, como tudo na vida, as coisas mudam: a casa foi vendida, a família, que antes era concentrada naquela casa e naquele bairro se esparramou pela cidade, os vizinhos não estão mais lá, construções novas e viadutos surgiram naquele lugar.<br><br>E a pedra?<br><br>Dia desses, passando por um dos viadutos ali existentes, olhei como quem não espera nada, para a velha casa, talvez com esperança que alguma daquelas boas lembranças da infância e juventude tivesse ficado ali materializada. Qual não foi minha surpresa ao avistar a pedra, no exato lugar onde esteve nas várias décadas de sua existência.<br><br>Alguém a pintou de preto, tirando-lhe o brilho natural que só as pedras do tipo paralelepípedo têm, mas não faz mal, ela ainda está lá. Quase se pode "pegar" suas lembranças impregnadas, suas histórias armazenadas em seu "hardware pedroso".<br><br>Deu até vontade de roubá-la do local, não fosse seu peso e tamanho, mas é claro que isso não passou de um impulso. Não importa, ela está lá, algo sobreviveu naquele lugar de tantas lembranças boas e, tenho certeza de que quem se senta naquela pedra, percebe as vibrações e a energia de tanta história e alegria por ela presenciada e guardada, para repartir com quem tiver a sensibilidade de percebê-las.<br><br><br> E-mail do autor: [email protected] <br>