A passarela, as meninas e a saudade

Quando eu deixava o vestiário na parte térrea e corria ao elevador para chegar ao sexto andar, eu sequer me preocupava em tomar o café da manhã. Tudo o que eu queria mesmo era ver aqueles olhos repletos de magia que só encontrava no rosto alvo de Cristina.

Decerto que na fábrica existiam centenas de outros belos olhos e rostos, mas o olhar terno, um olhar carregado de mistério, pertencia apenas a Cristina. Às 18h soava o apito da fábrica de tecidos e calçados e, lá no andar térreo, eu ansiosamente aguardava o horário de almoço.

Assim comportei-me dia a dia por mais de meio ano, apenas a observando, não que o receio de quebrar a cara fosse maior que a minha timidez, acontece que na empresa também trabalhava Rosineide, na época, minha noiva.

Mas, eu me via envolto em paixão e juro que paixão igual novamente voltaria a viver, era uma coisa de juventude, sei lá, que coisa bela! Às 14h soava o apito, eu saía voando para o banho, depois, fora do prédio, fazia a travessia da passarela e do lado de baixo a via desfilar entre tantas outras beldades, mas eu só tinha olhos para Cristina…

Então no dia 9 de fevereiro de 1990 fui demitido, o meu noivado havia virado pó, nada restava senão guardar a sete chaves aquela paixão e seguir adiante.

Há dezoito anos resido no interior, curiosamente contraí matrimônio com a Silvana, uma moça que conheci na São Paulo Alpargatas S/A. Somos pais de uma linda menina e sigo a minha pequenina vida.

E das lembranças que a vida me deu – como diria o poeta, o som do apito, os bares e a passarela da Rua Dr. Almeida Lima, fazem morada em meu coração, bem ao lado da meiguice que eu via nos olhos de Cristina.

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