Em 1945, um pouco antes do término da guerra que ficou conhecida como a "segunda grande guerra", conflito que direta ou indiretamente envolveu praticamente todos os países do mundo, os quais acabaram se juntando para extirpar o avanço "nazifascista" que assombrou o mundo pela sua crueldade.
Diante do horror desse conflito, várias entidades, personalidades e estudiosos analisavam suas consequências para o planeta e especialmente para o dever do ser humano e seu futuro. O sociólogo russo Pitrin Alexandrovich Sorokin nos transmitia um alento ao formular que o fim do conflito iniciaria uma nova era, uma mudança radical na cultura ocidental, deixando de ser, na sua visão, sensorial, a que valoriza os aspectos materiais, para transformar-se na ideacional, a que valoriza mais os aspectos espirituais.
A própria igreja se empenhava em um processo de redenção da humanidade e orientava seus fiéis, difundido a fala do Papa Leão XIII: “Tornare alla dignitá umana, come Dio ci ensegna” (Devolver ao ser humano a sua dignidade como nos ensina Deus). Muitos romances, peças de teatro, musicas e filmes retrataram com histórias épicas esse infausto acontecimento, verdadeira nódoa a manchar o caráter do ser humano.
Víamos através deles o quão sofrido foi para os povos diretamente ligados ao conflito. Sempre pensei que o sofrimento deles, só suportado pela altivez de enfrentar o inimigo invasor e destruidor, foi muito mais terrível quando comparado com o nosso sofrimento aqui na América do Sul. Digo isto porque o nosso país, que também tinha entrado no conflito, passou momentos de dificuldades. Lembro ainda que havia falta de alguns alimentos básicos como o pão, cuja escassez trazia transtornos à população para obtê-los.
Na época estava com sete anos e minha mãe me acordava cedo, às seis e meia, para ir a fila do pão, como chamávamos o ato de comprar o escasso alimento. A nossa fila do pão era ordeira e respeitosa, isto é, ninguém furava a fila. Em sua maioria era formada por pessoas idosas ou garotos como eu, que estudavam no período da tarde.
Não é preciso dizer que alheio as agruras do grande conflito fazíamos nossa algazarra na fila, nada que um pequeno pito de um idoso não botasse ordem na casa. Mas para nós era mais festa que tristeza. Os horrores da guerra eram sentidos na vilinha onde eu morava, principalmente pelos de origem italiana por não terem noticias de seus parentes na Itália, que acompanhavam angustiados o noticiário para identificar as regiões onde o conflito mais recrudescia.
Nos fundos da vilinha havia uma área comum aos moradores com um poço, balde com uma corda presa a uma carretilha para puxar a água com a manivela e oito tanques de lavar roupa, além dos varais para pendurá-las. Quando eu chegava da escola, ainda em tempo de guerra, uma italiana de nome Carmela, analfabeta, me chamava com um jornal na mão. Ela gritava :
– “Calabrês (era o apelido que ela me dera por causa da origem italiana de meus pais), viene qui”.
E me pedia para ler as noticias da guerra. Eu me sentava na beira do poço e botava a maior "panca", era assim que se dizia na época, para ler o noticiário imitando o Heron Domingues, locutor do mais ouvido noticiário jornalístico daqueles tempos " O Repórter Esso – o primeiro a dar as últimas", e mais tarde "Repórter Esso, a testemunha ocular da história". A minha volta juntava uma platéia silente, só de mulheres a me ouvir narrar os fatos, silenciosas porque as notícias, apesar de registrar ações vitoriosas da gloriosa FEB – Força Expedicionária Brasileira, eram geralmente tristes, tanto para descendentes de italianos quanto para nós, ao falar das baixas dos dois lados.
Mas, depois de ler, dona Carmela me dava um beijo e me agradecia, enaltecendo para as outras ouvintes meu talento de locutor. Elas ficavam ali um tempinho comentando as noticia e logo voltavam às azáfamas dos seus cotidianos, lavar, secar, passar, almoço…
Voltando a fila do pão, ela acontecia na Av. Jandira, em Indianópolis. Começava na padaria do "seo" Viriato na esquina da Aicás com a Jandira e descia até quase a Av. Tapuias, hoje Maracatins. Ao chegar minha vez, com a caderneta na mão, falava como gente grande:
– “Bom dia ‘seo’ Viriato, por favor, um filão de pão de água", que era o favorito do meu pai.
As vezes, por insistência minha e de minha irmã, nossa mãe consentia que pedíssemos um filão de pão sovado ou suíço que eram os tipos de pão que se faziam naquela padaria. Muitas vezes filávamos um pão doce com recheio de coco que eu dividia com minha irmã.
O bondoso "seo" Viriato, sempre sorridente, embrulhava o filão com o pão doce, anotava na caderneta somente o filão, mas não o pão doce, e agradecia pela compra. Hoje eu sei que ele o fazia não só por gostar do meu jeito educado de pedir o pão, mas também por estar penalizado com o fato de um garoto de calça curta, uma camisa fininha de algodão de magas curtas e com o pé no chão, isto é, descalço aquela hora da manhã, estar tiritando de frio em uma fila enorme.
Agora me dou conta de que não era sempre que usávamos sapatos, a não ser para ir à escola, ao cinema do bairro ou outro evento social, a fim de não gastá-los. Certa vez, ao sair da escola, um colega trouxe uma bola de meia, daquelas que se fazia com uma meia de mulher recheada de papel ou pano, e começamos um “racha” ali na Rua Jurupis. Não deu outra, a sola do pé direito se abriu. Quando cheguei em casa levei um “ralho daqueles”. Imediatamente minha mãe levou o sapato no seu Jorge sapateiro, ali na esquina da Tapuias (Maracatins) com a Jurucê para ele colar a sola.
Com o tempo a normalidade voltou ao país e daquela padaria ficou a saudade pelos eflúvios dos pães que vinham dos fundos, sendo cozidos no grande forno de pedra. Até hoje minha memória olfativa guarda aquele odor e quando me lembro, dá água na boca! Tristes, mas bons tempos aqueles. Que pena que acabou, pelo menos para mim.
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