A mudança (uma aventura da tia Dora)

Tia Dora e seus dois filhos, Clelia e Mario, moravam com a minha avó na rua Nilo, no casarão da família Martins de Souza, onde meu pai ainda reside. No tempo desta história, estes meus dois primos eram crianças e tinham fama de levados da breca. A Clelia era talvez a mais difícil de criar, deixando a família de cabelos brancos com suas maluquices, como descer a rua Nilo em pé na bicicleta, largando as mãos dramaticamente e gritando a todo pulmão:<br> <br>– ESPETACULAR!!!! <br><br>Não sei como ela se equilibrava; e realmente dava um show na rua. Era também conhecida como a menina que subia em árvores como um macaco e batia em todos os meninos. O Mario não ficava atrás, sendo ambos barulhentos, briguentos e junto com a tia Dora formavam um trio que não se podia ignorar.<br><br>Coitada da minha avó Carmela, que gostava do seu sossego, de costurar usando suas rendas italianas, no seu quarto ensolarado, com os janelões abertos para a rua Nilo de outrora, olhando para os poucos passantes e acenando de quando em quando para as vizinhas da frente em seu jardim de rosas amarelas. Pois quando a Clelia e o Mario chegavam da escola a calma e o silêncio terminavam de vez. Eram gritos, correrias, a tia Dora atrás dos filhos querendo saber quem tentou escovar os dentes da cachorrinha Estrela, que por sua vez estava debaixo do tanque choramingando. Ou querendo saber quem comeu os bombons que já estavam embrulhados para presente (a Clelia) ou quem soltara o porquinho da índia no porão (o Mario). E por aí vai.<br>Minha avó se fechava no quarto, rezava para que eles achassem uma casa para se mudarem, mas nada. Tio Duilio, o marido da tia Dora, um homem calmo, pacato, sério, só abanava a cabeça, talvez tentando se lembrar de onde falhara com sua família e como seria possível ter dois filhos tão diferentes dele. Mas eles eram filhos da tia Dora tambem…<br><br>Um belo dia, tia Dora anuncia que finalmente havia encontrado uma casa para alugar e se mudariam na semana seguinte. Era no segundo andar de um prediozinho de apenas dois andares em Santana, um bom apartamento meio antigo, mas em bom estado e o aluguel não era muito caro. A família toda passou a semana seguinte empacotando livros, roupas e objetos de cozinha, os móveis de quarto seriam levados, um fogão novo foi comprado.<br><br>Tudo pronto, o caminhão da mudança chega segunda-feira cedo. Que farra e que confusão! Tio Duilio dando graças a Deus que estaria no trabalho o dia todo, A Clelia sentada sobre as caixas no caminhão da mudança, o Mario tentando achar a Estrela até a última hora, a tia Dora fumando maço após maço de cigarros para acalmar os nervos. Às dez da manhã o caminhãozinho sai com a tia Dora e família, e a vó Carmela se ajoelha para agradecer a Deus. Depois, convida umas amigas para um cafezinho da tarde. O silencio era até palpável. Um bem-te-vi canta lá fora. Paz.<br><br>No fim da tarde, lá pras cinco e meia, tio Duílio se dirige ao endereço novo em Santana. Sobe as escadas do apartamento. Abre a porta. <br>Tudo vazio. Nem móveis, nem família.<br><br>Naquele tempo, sem celulares, meu tio não pôde fazer uma ligação imediatamente para saber o que havia acontecido. Um vizinho na rua Nilo tinha um telefone, mas tio Duilio resolveu voltar para a Aclimação para saber se a vó Carmela sabia do paradeiro da tia Dora e crianças.<br><br>Nem precisou perguntar. Ao entrar no quintal da casa da minha avó, se depara com todos os móveis e caixas de volta, atravancando o caminho. Tia Dora sentada na escada, Clelia e Mario se atracando por alguma desavença.<br><br>“Nós voltamos”, explica a tia Dora. Assim que começamos a por os móveis no lugar lá em Santana o vizinho de baixo veio reclamar que as crianças estavam fazendo barulho (Aparentemente, Clelia e Mario estavam escorregando de uma ponta a outra do apartamento aos berros :<br><br>–ESPETACULAR!!!!!!!<br><br>Tio Duilio não disse coisa alguma. Abriu a torneira do tanque e enfiou a cabeça embaixo da água fria. Vó Carmela fechada no quarto, rezava .<br><br>E-mail do autor: [email protected]