Da frente do prédio de minha filha, onde tinha estacionado, virei a primeira esquina à esquerda. No final da pequena rua, em uma lojinha de antiguidades, lá estava ela.
A mesma cor grená, a mesma cabeça de saúva como conjunto de farol e direção, com o velocímetro em cima. A mesma placa na roda dianteira com a marca Jawa, que se repetia na lateral cromada do tanque. Mas faltavam os escapamentos, vários fios pendiam soltos desligados do motor, o assento rasgado. Ainda assim era uma moto Jawa, checoslovaca, dos anos 50. Como a que havíamos tido, no final desses mesmos anos.
Pequena e elegante, em nada lembrando as precárias armações em que hoje os motoboys arriscam suas vidas no trânsito paulistano, nem as pesadas motos de alta cilindrada, tipo Harley, as Fatboys que nos esmagariam se tombassem em cima.
Na medida certa, convidando a ser cavalgada, tomar do volante e sair por aí, caso estivesse em condições. Não estava, mas não resisti; montei-a, dei partida e acelerei ainda que o motor não funcionasse, as rodas estivessem murchas.
Na minha louca jornada, voltava ao passado, como em uma máquina do tempo. O velocímetro, ao invés de quilômetros, marcava anos, e para trás, sempre para trás. Em um tapete mágico, movido a jato, subi as ladeiras de Pinheiros. O mostrador assinalando: 2008, 2007, 2006, e baixando… desci ao Pacaembu, embarafustei pela Barra Funda, e então a moto estancou, abruptamente. No mostrador, 1959. A moto estava no jardinzinho de uma pequena casa da Rua Brigadeiro Galvão.
Foi ali e assim que Ivan, meu irmão, e eu, ainda adolescentes, a vimos pela primeira vez. Impulsionados pelas imagens de Marlon Brando e James Dean barbarizando em suas possantes, procurávamos uma modesta imitação. A moto, com pouco uso, pertencia a um casal alemão. Feito o negócio, iniciamos o treinamento.
Ivan, nisto muito mais habilidoso, logo dominava a máquina. Eu era bem desajeitado, e íamos então treinar no Pacaembu. Logo de princípio cometi algumas barbeiragens. Subi na guia, bati em um carro parado. Enfim, peguei o jeito, que como andar de bicicleta, dizem que não se esquece mais, o que eu duvido.
Em uma garagem perto do apartamento, treinávamos os oito, símbolo do infinito, que são o tira-teima na direção de qualquer veículo. Estava, afinal, saindo-me bem. Passo seguinte, o Ibirapuera, que era a Meca dos motociclistas paulistanos. Comecei bem, contornando o grande lago. Depois, a via que passa ao largo do Pavilhão Japonês, da ponte em arco. E acelerando, trocando as marchas, sempre acelerando. Então virei à esquerda, como quem vai para a Bienal. Estrada de terra, com areia e cascalho. E lá fui para o chão. Sem contusões, mas o para-brisas de plástico, recém-comprado por meu irmão, ficou arranhado. Imagine-se o desgosto dele.
Próxima aventura, ida a Santos. Tomamos a Avenida do Estado, eu na garupa, e a pequena moto roncando lindamente. Mas a alegria durou pouco: a chuva desceu sobre a Baixada, com jeito de não parar mais. Toca a subir de volta, totalmente encharcados, apesar de nossas capas plásticas.
Descendo pelo Parque D. Pedro, na altura da Rua do Gasômetro, um carro nos fecha. Seu para-choque traseiro se engancha no Santo Antonio da moto, e eis-nos com os costados no asfalto molhado. Nenhum ferimento aparente, mas a moto teve que ficar no posto de gasolina da esquina. Só no dia seguinte eu sentiria os pontos doloridos.
Nesse tempo, não havia problemas em conseguir suas peças: na Barão de Limeira, a grande loja de Felipe Carmona vivia repleta de motos e gente. Mas a Jawa foi para uma oficina na esquina da Rua Barra Funda, e o azar não terminara. Um carro desgovernado atinge a oficina, e mais estragos.
A moto sobreviveu a tudo isso, e lembro-me ainda de meu irmão adentrando com ela o portão de nossa nova casa, no Planalto Paulista. Mas por pouco tempo. Logo vendeu-a e passou a pensar em um carro. E eu também; nunca mais voltei a montar em uma motocicleta.
Mas vendo agora a motinha no antiquário da esquina, subiu-me a velha tentação. Como seria ter uma, hoje em dia? Pensei nos inúmeros motoboys que morrem em confronto com carros. No louco trânsito da capital, onde uma moto esgueira-se entre os autos competindo com milhares de outras, e todo mundo furioso. Não, não tenho mais idade para tais coisas. Então adeus, bela Jawa 59.
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