É muito engraçado agora lembrar daqueles tempos em que uma pessoa morria no bairro, pois a morte naquela época era algo raro e monstruoso. Era um alvoroço sem fim.
O corpo era velado na própria casa do morto. As janelas eram vedadas com pano roxo e o velório ficava num entre e sai sem fim.
Eu era criança e morria de medo quando sabia que alguém tinha morrido, mas observava a expressão dos adultos diante do inevitável. Havia gritaria, desmaios, sussurros ao pé do ouvido entre os parentes, amigos e vizinhos.
Durante toda a noite ficava aquele burburinho e, no dia seguinte, chegava o Rabecão para levar o morto até o cemitério.
Daí em diante, até um ano depois, a família vestia preto (as mulheres) e os homens colocavam uma tarja preta na manga da camisa.
Na missa de sétimo dia, então, era outro drama… E o "legal" disso era receber o "santinho" com a cara do morto e os dizeres: "Saio dessa vida, mas não esquecerei aqueles que tanto amei na terra".
Tive um tio que fazia coleção desses "santinhos" e ficava entre o mórbido e o cômico.
Hoje é diferente, entendemos a morte e a vemos diariamente nos jornais e telejornais; e fica aquela sensação de que hoje vida e morte caminham juntas e bem perto.
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