-Se o senhor não está lembrado, dá licença de contar… Assim começava "Saudosa Maloca", e também era, talvez, a primeira vez que ouvia falar da Mooca. Bom, não exatamente…
Se esta música do Adoniram não falava em Mooca, a sua continuação sim: "E hoje, lá no Alto da Mooca, eu comprei um lindo lote, dez de frente, dez de fundo, construi minha maloca"… quando vínhamos a São Paulo, alguns nomes de bairros chamavam-me a atenção, e ficava imaginando como seriam.
Nomes estranhos, como Freguesia do Ó, que vi numa placa de final de ônibus, bem junto ao Teatro Municipal. É também o caso da Mooca. Não tinham nada a ver com que conhecia de São Paulo, o Centro Velho, o Viaduto do Chá, a Barão de Itapetininga e, mais longe, a Avenida São João, a Praça Marechal, a Barra Funda, o Pacaembu, a Água Branca.
O resto não me dizia respeito, não ficava na minha rota de visitante de passagem. Quando viemos para cá, em 55, meus conhecimentos foram se expandindo, ao mesmo tempo em que a cidade crescia, num ritmo muito além de qualquer acompanhamento.
Quando comecei a trabalhar, e ganhar algum dinheiro, a Mooca acabou comparecendo na minha vida. Com três amigos, participava de um estúdio de desenho no Prédio Martinelli. Desenhávamos histórias em quadrinhos para a Editôra Outubro, que ficava na Rua da Mooca.
Então, a minha Mooca era só a do seu trecho inicial, a editôra ficava quase na esquina da Carneiro Leão, em frente a um grupo escolar, que ainda existe.
Era – ainda é – um prediozinho de tijolos, com dois andares. Embaixo, guardadas por uma grande porta de enrolar, ficavam as oficinas. Em nada se distinguia do panorama ao redor, tantas outras fábricas e oficinas desbotadas. E, é claro, alguns botecos, que ninguém é de ferro.
Na parte de cima, os escritórios e os estúdios de Cortez e Penteado, os sócios encarregados da parte artística. Cortez, português lisboeta e grande artista, era temido por sua ironia e observações implacáveis.
Não cheguei a ser seu amigo, mas nos demos bem desde o princípio, quando levado por outro desenhista, apresentei-lhe um trabalho, tímido e inseguro. E ele ,por vezes tão ferino, achou-me, generosamente, de nível profissional.
– Já trabalhastes nisto?
Não, eu era apenas um principiante. E assim comecei como ilustrador, e por dois anos passei a frequentar a Mooca. Não ia lá frequentemente, mais em dias de entrega de trabalhos e, que alegria, de pagamento!
Atravessávamos o tranquilo parque Dom Pedro, do qual lembro como um grande espaço aberto, com algumas árvores, o córrego mau-cheiroso correndo pelo meio, poucos transeuntes. Ás vezes passávamos perto do Parque Shangai, no qual nunca estive. E logo estávamos do outro lado, na Rua da Figueira.
Nos dias de pagamento, quase toda a equipe comparecia. Alguns vinham do Rio de Janeiro, tão entusiasmados eram todos, mesmo com o dinheiro tão curto. Aí virava uma festa. Os sócios interrompiam seu serviço e vinham confraternizar com a turma.
Nunca fui de beber, mas admirava aquele espetáculo de descontração e espontaneidade. Às vezes, um estranho com violão se juntava ao grupo, entoando, qual um Sílvio Caldas, belas serestas – "Não chora, oh, não chora, meu benzinho estou brincando, teu amor não vai embora…"
Nem todas surpresas eram tão boas. O sócio encarregado das oficinas, um lituano com dois metros de altura, era ótima pessoa. Muito tímido e gentil, não podia beber um único gole, pois se transformava num Frankentein furioso, insistindo em beber cada vez mais. E ai de quem tentasse segurá-lo!
Uma vez desafiou um time inteiro de futebol, levando tremenda surra.
Por falta de planejamento e dissipação dos lucros,a editôra fechou, ao mesmo tempo que acontecia o golpe de 64.
Mas essa era essa a Mooca do meu tempo, na verdade apenas seus quarteirões finais.
Estive lá há algum tempo, vindo do Memorial do Imigrante. A editôra, agora dedicada a outras funções, não sei quais, continuava igual. Como era domingo, estava fechada. E tudo igualmente parecido ao redor, até mesmo um dos bares das comemorações, que ainda existe na esquina!
A coisa só começa a mudar, e muito para pior, mais abaixo, com um viaduto que não existia no meu tempo, e então sem-tetos e outros coitados ocupando o pedaço, como parece ser o destino dos viadutos em São Paulo.
São Paulo é tão vasta que, para nós, cada bairro limita-se nas fronteiras onde terminam nossas recordações, muitas vezes apenas de passagem.