Brilha na manhã de 2 de setembro do ano de 1952; um sol cativante nos aquece, seus raios colorem no horizonte o céu azul, tenho apenas nove anos de idade completados no mês de julho do mesmo ano, o mundo na sua amplitude para mim é um sonho a ser buscado, tenho a fantasia própria da idade infantil, moro ali na Bela Vista, mais conhecido por Bexiga, minha casa fica na Rua dos Ingleses, aliás bem pertinho da poética e bucólica Avenida Paulista onde despontam no meio de prédios suntuosos, mansões enfeitadas por um contingente de belas flores; os olhos se emocionam tal a magia do quadro apresentado, sem falar dos avermelhados bondes com os seus elegantes motorneiros que alegres com a vida assobiam as serenatas que enaltecem seus romances particulares; existe a paz, a educação é notada através de um bom dia, as pessoas vão e vem, a cordialidade é reinante.
Já fomos a missa das 8h, para isso descemos despreocupados a escadaria que nos levaria a parte baixa do Bixiga, o destino, a igreja Acaropita. Linda, aconchegante é nos apresentada, local onde as orações ecoam pelo seu recinto criando uma atmosfera de suavidade e paz. Eu, menino de calças curtas, minha mãe Izabel e vovó Gilda, mãe de meu padrasto, ali estávamos orando aos céus as proteções necessárias para levar a vida em frente tendo como base fazer o bem ao próximo. Meu padrasto José, assíduo frequentador das missas, não pode ir, pois sendo um exímio alfaiate tinha que terminar o terno de um renomado industrial da época, nada mais que um tal de Matarazzo.
Findado o rito religioso fomos de imediato para o nosso modesto lar, já incontinente vovó pilotaria o fogão, decorriam nove horas e o cheirinho característico de comida impregnaria no ar e ela começaria a preparar o almoço começando pelo preparo de uma suculenta macarronada; eu não via a hora de chegar o horário do almoço, coisa de criança.
Era italiana a nossa vovó, imaginem o que veio depois… Uma deliciosa maionese, tinha o sabor dos deuses. Todos saboreariam um velho vinho, menos eu que tinha que me contentar com o caçula da Antártica. “Good times”. Tempos felizes de vários domingos na Bela Vista, mas o próprio tempo é inexorável; a gente era tão feliz e nem perceberia. Saudades do macarrão e maionese preparados pela vovó…
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