Anos 70. Acho que, definitivamente, envelheci. A memória recente é meio falha às vezes, mas a remota… Lembro de cada coisa que nem eu mesma acredito! Esta é uma. A história da freira sem cabeça que assombrava as madrugadas dos bobinhos dos médicos residentes da Santa Casa! Eu era um deles, R1.
Primeiro ano de residência médica, recém-saída dos cueiros da faculdade, achando que era o máximo! Fazia o primeiro ano de residência médica na Ginecologia e Obstetrícia da Santa Casa, o famoso Dogi. Pois bem. O Dogi era no final de um “looooooooooooooooooooongo” corredor escuro e estreito, com aquelas paredes de tijolinho e um chão centenário de ladrilhos hidráulicos, uma luz borboleante que não tinha 40 velas, e às 2h, 3h, 4h, 5h da manhã tinha, o infeliz que estivesse de plantão, que rumar ao Pronto Socorro para atender as emergências.
Saía-se do Dogi, meio dormindo, meio acordado para fazê-lo. Sempre tinha um gaiato de um R2, que como de costume" pegava no pé" do novato e dizia:
– "Cuidado com a freira sem cabeça, que ela te pega no fim do corredor!"
-“ Mas, que droga é isso?”
Aí me contaram… Dizia-se que nas madrugadas frias do mês de julho, quando menos se esperava, sempre que um médico do Dogi se dirigia ao PS ela apavorava o infeliz… Vestia um hábito preto, uma gola branca, mas, a cabeça? …Não tinha! “Báh”… Historinha de médico velho para meter medo em recém-formado…
Naquela noite eu estava de plantão… Não fui chamada. Nem sei bem o porquê, mas quem foi ao PS foi o R3. Era o especialista, quase todo poderoso… Nem vou dizer o nome dele aqui, porque senão vou ser processada… Só me lembro do retorno… O homem branco, suando, quase desmaiando chegando do PS de volta ao Dogi e eu:
– “O que houve, ‘colega’?”
– “Ela, ela correu atrás de mim quando saí do PS!”
-“Quem, criatura? Quem?”
-“A freira sem cabeça!”
Acreditem se quiserem, mas esta história é a mais pura verdade! Aconteceu e eu vi. Não a freira, mas a consequência!
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