Não tive amigos no tempo em que morei no Bixiga, apenas colegas de escola. Filho único, morando em um cortiço da Rua Ruy Barbosa, vivia dentro do quarto preparando minhas lições ou ouvindo rádio. Quando havia uma sobrinha de dinheiro ia à matinê do cine Rex ou do cine Espéria, coisa muito difícil de acontecer naquela época, anos 40.
Então houve uma mudança em nossa vida. Meu pai era radiotelegrafista e trabalhava no Palácio dos Campos Elísios e na Estrada de Ferro Santos a Jundiaí desde o tempo da São Paulo Railway, quando foi convidado a trabalhar na VASP, em Congonhas. Com a melhora da situação financeira, ele teve condições de alugar uma casa de verdade na Vila Clementino. A casa tinha dois quartos, duas salas, cozinha, e banheiro com chuveiro elétrico (incrível! Tinha até um armarinho com espelho, imaginem!) e quintal. Era a glória!
Tinha 11 anos quando tive meus primeiros amigos: o Clóvis, o Antoninho, o Vadão, a Lílian, o David, o Carlinhos. Não eram muitas as crianças que moravam naquele quarteirão da Leandro Dupré, entre a Loefgren e a 11 de Junho. Foi difícil acompanhar o ritmo deles, vamos ser sinceros, eu não estava acostumado com a liberdade, com espaços amplos e aberto, com o futebolzinho despreocupado e gostoso nos campinhos da vida.
"A nossa turma contra a turma da rua de cima, 10 vira 20 acaba…", (não se esqueçam que o Bixiga sempre foi um bairro definitivamente pronto, com seus paralelepípedos e casas coladas, parede e meia. Não existia espaço para uma criança brincar, correr, jogar bola…).
Da Loefgren se avistava nitidamente a mata do Morumbi, não havia espigões e nem casas à frente. Uma visão que nos deixava fascinados: – Qualquer dia desses vamos de bicicletas até lá? A gente leva sanduíches, gasosas e faz um piquenique lá naquele "arvão", "cês topa"? E todos concordavam: – Qualquer dia desses a gente vai… Vamos bem cedinho… Num domingo…
Nossa turminha era entusiasmada, mas, é claro, não tão ousada. Portanto, essa expedição rumo ao desconhecido nunca aconteceu. Sozinhos, quando muito, íamos ao Cine Phenix na Domingos de Morais, ao Cine Estrela na Pça da Árvore ou ao Pq. do Ibirapuera que estava sendo construído, fora disso, só acompanhados pelos pais ou tios.
Hoje em dia tenho uma casa de veraneio na praia e, quando estou voltando para minha casa em São Paulo e passo pelo aeroporto, procuro ver a grande árvore, o "arvão", a mata, o verde, numa espécie de reflexo condicionado que já dura quase 60 anos. Só vejo prédios e mais prédios e mais prédios e sinto o desagradável “bodum” que emana do rio Pinheiros.
Fecho a janela do carro e fico pensando com os meus botões, “a gente devia ter ido… devia ter ido…” porque será que não conseguimos ir?
Minha esposa, Odete, olha para mim e diz: – No que você está pensando? Respondo: – Nada, nada… Mas que droga de trânsito, né? Quando o rodo-anel ficar pronto, talvez melhore…
E ela responde: – É talvez… Vê se anda logo… Só espero que "as crianças" (nossos filhos adultos e nossos netos) tenham pelo menos feito uma comidinha! Não aguento mais comer pizza e esfiha… – Nem eu…
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