A Feijoada das Quartas

Não sou fã de feijoada. Bom, até que gosto, mas o estômago já não aceita tão bem como há tempos passados. É comer e passar mal.
Pois esse problema era até apregoado como virtude, pelo meu amigo Sylvio, a"Velha Serpente", sobre quem escrevi aqui, faz algum tempo.

Dizia ele que feijoada boa mesmo era aquela comida em dia escaldante, de modo a pessoa sair do restaurante direto para uma ambulância do SAMDU. Tinha direito de dizer isto, pois esse hábito das quartas feiras fora instituído por ele, antes mesmo de se aposentar.

Trabalhara em muitas agências de propaganda, e querido ou detestado, era sempre uma figura destacada e influente. Então, onde o Sylvio ia, a turma ia atrás.

De qualquer forma, era uma maneira de reunir o pessoal, esparso pelo mercado, e alguns, mesmo àquela altura do campeonato, já desempregados ou aposentados.
A coisa começou num bom restaurante, de propriedade de um filho da "Serpente", próximo á R.Jacob Tabacow. Tudo bonito, agradável e primorosamente cuidado.

Ali foi onde acertaram melhor com a feijoada, saborosa, generosa e sempre bem acompanhada. Era uma festa, de conhecidos e estranhos, mas, se de dia o restaurante enchia, de noite ficava vazio. E resolveram fechá-lo. A feijoada, como São Paulo, não podia parar. Foi transferida para outro local, numa esquina da R.Pinheiros, e por bom tempo ali se manteve, com muito boa qualidade.

Lembro-me de uma vez que cheguei cedo, e um amigo já se encontrava a postos, bebericando uma cachaça e mordendo seus torresminhos. Quando contei isto no serviço, como exemplo de maus hábitos, uma colega não se conteve: "-que delícia!"
Aí o restaurante, sob nova direção, mudou a programação e extinguiu a feijuca.

Nova mudança, e esta foi para o Gioconda, próximo à Av.S.Gabriel.
Mais um bom período, era bem preparada e o pessoal comparecia em massa.
Não durou muito, o restaurante fechou e a eterna busca pela boa feijoada, e com preço razoável, continuou.
Se por um lado variava o lugar, a patota continuava mais ou menos a mesma, com algumas variações.

Essa festa móvel encontrou seu último refúgio num movimentado e grande restaurante, com gigantesco cardápio de pratos diários. No fim da Av.Brigadeiro, quase na Joaquim Floriano.

Aí a feijoada já não era lá essas coisas, mas o variado menu permitia outras soluções.
Chegou a um ponto que só os mais ortodoxos pediam feijoada. Os outros, novos pratos, e eu estava entre eles. E como tinham fígados de alumínio, ou então ainda pensavam assim, as festividades começavam com pasteis de aperitivo (já eram uma refeição em si) e muita cerveja e cachaça. Estas, cada vez mais raras, caras e refinadas, dos mais exóticos pontos do país.

Os radicais protestavam: "-ué,se não é para comer feijoada, não é preciso vir aqui
às quartas. Qualquer outro dia serve!" Mas a situação manteve-se, até a morte do Sylvio, como relatei.

Sem o Grande Líder, a feijoada esfriou. Muitos não mais voltaram. Alguns, com o avançado da idade ficaram mais doentes, e, pior de tudo, outros mais morreram. As baixas continuam.

Mas os mais fiéis ainda continuam comparecendo, e ainda tomando suas abundantes cervejas, e assim, postumamente, brindando ao saudoso Sylvio, que lá de cima, deve estar ironizando todo mundo, como sempre.