São Paulo, 14 de abril de 2008.
No dia 06 de junho de 1957, iniciei minhas atividades profissionais na firma Equipamentos Joseph Lucas do Brasil Ltda., recém-inaugurada na capital de São Paulo, estabelecida à Rua Clélia, 1903, aptos. 1 e 2, e 1907, no bairro da Lapa, edifício de propriedade do Sr. Eduardo Rodrigues.
O ramo de atividade da empresa consistia na Produção e Distribuição das famosas bobinas de ignição Lucas no mercado automobilístico brasileiro, em franco progresso na época. Toda produção obedecia aos moldes e permissão de Joseph Lucas (Industries) Ltd. de Birmingham, Inglaterra.
Era um mundo ainda estranho para mim. Não conhecia ninguém a não ser o presidente brasileiro, Gustav Willy Borghoff, e o Dr. Agostinho dos Santos Annes (auditor interno). No primeiro dia, fui à procura de um local adequado para as refeições. O horário de funcionamento da indústria era de 7 às 17 horas, com uma hora de almoço, de segunda à sexta-feira. Eu poderia optar, mas preferi seguir o horário dos operários.
O Dr. Agostinho apresentou-me ao alemão Friedrich Rolf Stein (além de compadre, era o homem de confiança do Sr. Gustav). Ele acumulava as funções de gerente de vendas e compras, emissor de notas fiscais, caixa e relações públicas; era assistido pela secretária bilíngüe Ilde (húngara de nascimento).
Em seguida, apresentou-me ao gerente industrial brasileiro, carioca, Sr. Wilson Souto Maior, ex-funcionário da Borghoff do Rio de Janeiro. Ele (também pessoa de confiança dos Borghoffs) seria o assistente dos próximos gerentes ingleses que vinham ao Brasil, aprovados e que aqui permaneciam por mais ou menos quatro anos, por conta e responsabilidade da matriz britânica. Não falavam a nossa língua, só se comunicavam em inglês e contavam com a ajuda do Sr. Stein ou do Souto Maior (ambos falavam bem o idioma britânico).
Tudo estava preparado para funcionar a contento, com a linha de montagem, prensas, material especial para produção, uma dúzia de operárias, três operários, um almoxarife e encarregada da limpeza e refeitórios.
O primeiro gerente industrial inglês foi mister Joseph Sidney Muddimann, Com a sua chegada, foi dada a largada da produção, testes e, assim, surgiram as famosas bobinas de ignição Lucas (anglo-brasileiras).
O Dr. Agostinho preparou-me para que eu pudesse acumular as funções de contador de custo industrial, departamento pessoal, assistente social, setor fiscal, faturista, controle do ativo imobilizado. No início eu conseguia dar conta do recado e, à medida que o movimento crescia, é claro, surgia a necessidade de novas contratações de pessoal especializado.
Os balanços eram encerrados em julho de cada ano, auditados por auditores independentes: Price Waterhouse Peat & Co., firma contratada pela matriz inglesa e com o apoio do Dr. Agostinho (auditor interno).
Para aumentar a minha capacidade profissional, comecei a participar de diversos cursos extensivos (SESI), ligados à racionalização do trabalho, contabilidade industrial e para aprimorar, principalmente, o idioma britânico (quatro anos de Academia Anglo-Brasileira). Agora, eu era Mister Antunes, passei a ser também uma espécie de cicerone, professor de português e colega dos ingleses. Aprendi com eles, mas também lhes ensinei muitas coisas acerca do nosso Brasil.
O almoxarife encarregado era o baiano Raymundo Arcanjo Ribeiro, assistido pelo seu colega mineiro, Joaquim, para a movimentação e controle físico do material de estoque (matéria prima para produção e outros de consumo geral).
Até (mais ou menos) o décimo dia do mês seguinte ao encerramento, devíamos enviar para a matriz inglesa o "margin cable", ou seja, um telegrama codificado com a previsão dos resultados obtidos no Brasil e, após o fechamento do balancete mensal, dava-se o preenchimento de formulários ingleses (financial administration report) i.é. Relatório Financeiro e Administrativo, com a terminologia inglesa e valores CR$ convertidos para a moeda inglesa (libra esterlina) e US$. A inflação na época era galopante, por isso era quase impossível manter uma provisão consistente. Os salários dos staffs eram corrigidos retroativamente, com base na inflação. Foi implantada a Correção Monetária para tudo, principalmente para o Ativo Imobilizado. Essa rotina prevaleceu até, se não me engano, o ano de 1993.
Os principais clientes eram: Ford Motor do Brasil, General Motors do Brasil, Volkswagen do Brasil, International Harvester do Brasil, Simca do Brasil, Mercedes Benz, Fábrica Nacional de Motores (FNM), Motores Perkins, Karman Ghia, Willys Overland do Brasil, Vemag (DKW) e outros que no momento não me ocorrem.
Os mais importantes fornecedores na época eram: Pirelli S/A. (fio de cobre), Acesita (aço silicioso), Shell do Brasil (óleo especial), dentre outros.
Dentre os gerentes industriais ingleses: Joseph Sidney Muddiman (dois períodos), Brian Howard Beer, Scattergood. Meus colegas e auxiliares: Paulo de Abreu, Paulo Meirelles, meu cunhado René Pinho da Silva, Ilde (secretária), Luiz dos Santos (operador de Front Feed).
Alguns colegas operários: Ednaldo de Araujo, sua irmã Elza, Deoclécia, Margarida, Juliana, Diva Francisco e sua irmã, Maria Helena, Maura Montiel, Dorival Thomazin, Walter e Cida, Emilia e Terezinha Macaggi, Edith Veiga (famosa cantora).
Após alguns anos, foi criada a Lucas Service (representando e fornecendo material elétrico Lucas e Girling), sob a gerência do inglês David Keneth Williams e sediada à Rua Clélia, mais ou menos 100 metros distante da fábrica.
Com a chegada ao Brasil da firma CAV do Brasil S/A. Auto Peças Diesel, o Mr. Charles C. Sharpston assumiu a presidência da Lucas e CAV. O contador da CAV era o escocês J. S. McCulloch, assistido pelo sub-contador Juarez.
Com a transferência da empresa para a Rodovia Raposo Tavares, km 30, Cotia (isenção de taxas e impostos), somente uma parte do pessoal aceitou continuar, uma parte foi indenizada e outra parte foi admitida (de moradores locais). O novo presidente era o sul africano Sir Lister James.
Com a fusão entre Equipamentos Joseph Lucas Ltda. e CAV do Brasil S/A. Auto Peças Diesel, a empresa passou a denominar-se Lucas do Brasil S/A. Ind. e Comércio. O Sr. J. S. McCulloch assumiu o meu lugar e passou a ser o contador geral, e o seu pessoal substituiu parte do meu pessoal. O Sr. F. R. Stein foi promovido a diretor-gerente.
Em 30 de outubro de 1967, ou seja, após dez anos e meio mais ou menos, fui dispensado, indenizado sem acordo, com 100% em dobro e com homologação no Sindicato dos Contabilistas de São Paulo. Essa foi mais uma enorme "escola de vida".
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