Os antigos conheciam a Estação Roosevelt como Estação do Norte (seu nome foi mudado em 1945 para estação Roosevelt, em homenagem ao Presidente americano). No início, ali não chegavam tantos migrantes "nortistas" – na realidade ali viria a ser a principal porta de entrada da migração nordestina e não de nortistas – mas europeus, principalmente italianos, que se fixavam nas imediações.
Mário de Andrade tem um conto belíssimo chamado "Primeiro de Maio" em que, através das andanças da personagem 35, faz referências à Estação do Norte, assim como à Estação da Luz, Jardim da Luz, Palácio das Indústrias, Palestra & Corinthians e outros pontos/coisas tão paulistanas. Quando penso em personagens, além dos clássicos já tão dissecados pelos estudiosos, como Bentinho, Capitu, Diadorim e outros, penso nestes que ficam meio que subentendidos, como por exemplo, o retirante de "Asa Branca". A análise de uma música busca acordes, rimas, melodia, sincronismo letra e música, enfim, dados técnicos. Eu gosto de buscar compreender este lado menos técnico e mais emocional. O retirante criado por Humberto Teixeira e imortalizado por Luiz Gonzaga, por exemplo, ao fugir da terra seca para onde teria ido? Para a Estação do Norte, possivelmente! E ali chegando, será que ainda se lembrou por muito tempo dos olhos verdes que deixou na caatinga ressequida? Será que não conheceu uma linda italianinha e foi colher café na alta mogiana? Talvez tenha se empregado na Matarazzo ou na Kowarick e nunca mais retornado ao seu nordeste. Ficou na música brasileira; ficou no imaginário nacional.
Estes momentos que os artistas pescam no ar e transformam em arte é a síntese da criação. É isto que estes cronistas e historiadores – amadores na acepção do termo – que vêm escrevendo dia a dia a História de São Paulo, vêm fazendo e o povo de São Paulo deve muito a eles. Não vou cita-los nominalmente, pois são muitos, mas é a partir destes teares culturais que costumam se solidificar as grandes civilizações.