O ano: 1983. O cenário: velório de um cemitério em São Paulo. O ambiente: muita tristeza, pois acabara de perder um familiar muito querido. Personagens: a Regina, uma grande amiga (quase irmã) e eu.
Ela, tão minha amiga que estava disposta a qualquer coisa para me tirar daquele sentimento de dor. Outros personagens: alguns parentes e pessoas que se encontravam em outros velórios adjacentes.
Eu estava profundamente triste, compenetrado na minha dor de perda. Minha amiga ficou do meu lado o tempo todo, até que, em determinado momento, me pediu licença.
Estava tão envolvido no velório que nem perguntei o que ela iria fazer.
Passada uma meia hora (em plena madrugada) ela retorna. Fica quieta por uns cinco minutos e sussurra no meu ouvido: "Você não sabe o que aconteceu!!!"
Claro! Nem me passaria pela cabeça…
Mas ela retomou o fôlego, e continuou: "vamos dar uma volta". Saímos. Mal déramos alguns passos, ela, sem perder o fôlego, começou a narrar que quando se afastara e dera uma volta no velório e passou a entrar em todos os outros. No andar de cima passara por um e era de um pai de santo e que estava cheio de "baianas" e pessoas vestidas de branco.
Ela era de tal forma divertida, seu jeito de contar as coisas. Era tão trivialmente engraçada (não sei se me expressei bem, mas foi a melhor forma de deixar vocês, que agora leem este texto, soltarem a imaginação). Eram coisas ditas tão sem maldade, mas ao mesmo tempo agudas, que eram muito divertidas e inteligentes.
Eu, já começava a achar engraçado. Mas achava que me divertir com aquilo feria minha educação cristã.
No entanto, continuei a dar ouvidos. Pessoal, ela continuou a despejar o verbo. E a cada velório que descrevia, com muita crítica, detalhando pessoas de tal maneira tragicômicas, eu embarcava no papo. O tempo foi passando e eu comecei a esquecer os meus duros conceitos religiosos. Chegou a um ponto que eu já começava a rir por dentro.
Quando chegamos na descrição do penúltimo ela fez questão de detalhar que era uma família descendente de italianos, muito provavelmente do sul. O falecido, com todo o respeito, morrera de repente. Então ela me contou que a "mamma" do tal "Güido" (o nome é fictício para não identificar o personagem real, e com o excesso do trema para acentuar a pronúncia italianada) chorava fazendo um tremendo escândalo e gritava: "Güido, pérché çê num mi avisô???!!! Filho mio! I agora… o mio neto tom bunitinhu, comme vai ficá? Un belo moçu… Güido!!! Güido!!! Güido, filho mio, çê abandunô ele, um moço ton belo?”.
Mas preciso confessar que nessa altura já estávamos no tal penúltimo velório "in loco". De longe já se ouvia o escândalo. Mas de perto!!! Como diz a famosa frase: "de perto ninguém é normal!".
A coisa era um escândalo digno de qualquer um daqueles famosos "INI"s, diretores do cinema italiano, digo muito especialmente os que dirigiram as comédias/críticas sociais do povo, das mais loucas e hilárias comédias italianas. Mas que poucos deles conseguiriam retratar.
Com todo respeito à dor dos familiares e muito especialmente da pobre mãe, peço desculpas, mas vou continuar relatando o fato. Sim, pois agora já não é mais a descrição do que minha amiga disse. Nós vivíamos aquilo! É um fato!
Por sorte eu estava de óculos escuro. A coisa tomou proporções horrorosas! O caixão do Güido chegou! A mulher, de seus sessenta e poucos, se atira no chão e de joelhos se arrasta nele, em frente ao esquife que passara por ela, até ser colocado no lugar de ser velado. A "mamma" não perdeu tempo e falou gritando: "Güido, purquê çê num mi avisô? Ce pudia ter dito nu café da manhã: 'To inu imbora!'"
Isto foi dito enquanto a mulher, aos berros e de joelhos, acompanhou a “última roupa” do "Güiiiidoooooo!???", até ser colocado entre as coroas de flores e as velas.
Gente, era surreal!
Nesse momento eu já havia esquecido a razão da minha presença naquele local. Perdi o controle, o humor já estava solto. Acabei colocando minha mão na boca, que, junto com os óculos escuros, dava ao meu personagem um certo ar de pesar, até de dor, no momento em que os espasmos do riso contido eram, na verdade, "incontíveis".
Eu parecia chorar pelo defunto, e minha amiga que estava de óculos passava pela mesma situação que a minha.
Nisso falei pra Regina: "Vamos embora! Antes que perguntem quem são esses dois estranhos que choram o morto e nem conhecemos?". Ela recusou-se dizendo que agora era uma questão de honra, já que estávamos lá ela tinha o direito de ver o belo neto que a avó anunciara (a avó era a "mamma" do falecido Güido). Ela estava solteira e, quem sabe, se fosse um "gato", ela poderia até paquerar com ele.
A fala dela é interrompida por um ruído que vem de fora. Um pessoal agitado, entre os berros da senhora, todos murmurando alguma coisa para tentar consolar a inconsolável senhora. Umas três ou quatro pessoas acompanhavam um vulto que, de longe, aparecia contra a luz. Muitos ali se manifestaram: "o filho do Güido". "Mio netu!!", começou o berreiro da avó e "mamma". Minha amiga apertou meu braço. Quando aparece o "belo neto"… Ah! Quando aparece o neto… Bom, digamos que ele não estava para um galã de novela, na verdade ele estava muito mais para um "nerd" de 25 ou 26 anos. Mas um tremendo "nerd".
Minha amiga ficou comicamente decepcionada, tirou a mão da boca e deixou o queixo cair.
Tivemos que nos retirar de lá às pressas, a fim de gargalharmos em outro lugar.
Gente! Nunca ri tanto num velório, local onde, diz a lenda, se contam as melhores piadas.
Meu sofrimento passara. Caí em mim e voltei à seriedade do que viera fazer.
Fiquei pensando que não sabia se tudo o que ocorreu não fora uma ajudinha do espírito de meu ente querido, que mandou essa situação para que não sofresse tanto. Agradeço a ele, a Deus e minha amiga e seu esforço para não me ver sofrer.
Mas, uma coisa é certa, desta cena cinematográfica, entre o real e o surreal, aprendi uma lição: a dor é inevitável, mas o sofrimento é opcional.
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