A donzela do Jardim Líbano

Este passeio, perambulando pelas ruas de Pirituba levou-me depois ao caminho da Avenida Mutinga, até o Jardim Líbano. Entro em um pequeno supermercado da região. Agora, recordo perfeitamente de um fato: as paredes do corredor haviam sido pintadas recentemente e os corrimões de acesso ao andar superior ainda estavam úmidos de tinta:<br> – “Olha a tinta!” – tentou avisar-me a moça da recepção. <br><br>Porém era tarde demais. Toda a mão esquerda estava apoiada no corrimão da escada. A moça olhou-me toda confusa. A sua advertência chegara aos meus ouvidos, depois do ato já consumado. O brado de alerta havia sido totalmente inútil:<br> – “Senhor, vou buscar um solvente para remover as manchas dos dedos” – disse-me ela, olhando para a minha mão toda borrada de tinta verde.<br><br>Ela se levanta altiva e grave olhando-me por um momento, desce as escadas do mezanino superior e entra em um compartimento acanhado do lado esquerdo de um pequeno corredor. Fiquei do lado de fora parado, esperando pelo seu regresso. Tive vontade de rir daquela situação de constrangimento. Afinal, a culpa era toda minha, porque não havia observado o cartaz colocado bem na frente, no rol de entrada do Super Mercado que advertia para o óbvio: “Tinta fresca”.<br><br>A moça trouxe o solvente e delicadamente embebeu no querosene um pano aflanelado e começou a passar entre os dedos e a palma da minha mão. Com franqueza sentia remorsos ao vê-la expondo-se naquela situação ridícula, tentando limpar os meus dedos sujos de tinta. Perguntei o seu nome:<br> – “Laura”- respondeu-me ela.<br><br> Trabalhava naquele Super Mercado fazia um ano e meio:<br> – “É a primeira vez que o senhor vem a este mercado?”- perguntou curiosa. <br><br>Fiquei embaraçado. Como era possível conhecer no meio de tantos fregueses, se era a primeira vez que eu ali entrava? Devia estar acostumada com o rosto das pessoas que diariamente por lá transitavam. Ela dissera aquilo talvez, sem pensar, pois ficou corada:<br> – “É verdade! É a primeira vez que aqui venho” – respondi sorrindo.<br>- “Que menina! – pensei.<br><br>Presumo que ela tenha apenas dezoito anos de idade! Que rostinho simpático! Não trazia nenhuma pintura. Estava no momento despida de qualquer artifício da maquiagem. Apenas usava o uniforme do supermercado sem nenhum enfeite, a não ser um pequeno crachá do lado esquerdo da blusa. O rosto era claro de expressão sincera meiga e natural! Jamais tinha visto uma moça com aqueles atributos especiais. Como me pareceu jovial e feliz! <br><br>Acredite ou não, dou minha palavra que, ao separar-me naquela tarde da moça, abrigava no peito alguma esperança de conquistá-la. Falamos e rimos de tudo, e estou bem certo ter durado quase meia hora aquela nossa conversa. Não creiam que me envaideço com isso, mas não podia absolutamente acreditar que uma jovem estivesse de conversa por mais de meia hora, sem motivo algum.<br><br>Quando nos despedimos deu-me uma boa tarde duas vezes. Só Deus sabe! Voltei a sentir os seus encantos quando na semana seguinte voltei naquele supermercado. Ela morava pelos lados de Pirituba, no Jardim do Líbano, na zona oeste de São Paulo. A partir desse momento, víamo-nos todos os dias; e antes de experimentar a doçura de vê-la novamente, meu desejo já saia ao seu encontro. Já lá vão cinco anos e essa recordação ocupa frequentemente a minha imaginação, pois tudo nesse romance me emociona. <br><br>Aprazávamo-nos para lugares diferentes na Estrada Turística do Jaraguá; no Horto Florestal, junto à mata verdejante onde fazíamos nossos lanches sentados na relva macia debaixo das quaresmeiras floridas, estendendo o pano xadrez com os sanduiches na cestinha de vime marrom. Sim, hoje estou contente e sinto crescer no peito um amor indefinível, para com todas as coisas. Aqui mesmo, no seu vestido, há uma pequena mancha de pó, ou talvez de lama; tudo que pertence a Laura desperta a minha ternura. Rimos juntos ao lembrar-nos daquele episódio da tinta verde no corrimão do supermercado. <br><br>Às vezes, receio ter perdido por sua causa, a faculdade de raciocinar.<br><br>Continuamos o nosso passeio. Ponho-me a rebuscar na memória algum lugar onde pudéssemos passar aquele dia:<br>- “Vamos até o Pico do Jaraguá. A caminhada tenho certeza que lhe fará muito bem” – sugeriu ela.<br><br>Verão cálido, um silencio infinito sobre a floresta tropical; seres e coisas parecem dormir, ou antes, meditar; nenhuma voz humana ao nosso redor altera a tranquilidade do ambiente; só o meu coração pulsa com alegre ritmo, como se tivesse bebido algum vinho generoso. Insetos voam entre os arbustos. Miríades de pássaros espalham-se no ar na claridade celeste do dia. Eu e Laura resolvemos estender o pano xadrez do piquenique na relva debaixo da sombra de um enorme jacarandá. Ela tinha trazido na cesta de vime um saboroso assado de frango. Alguns insetos circundam no ar, atraídos pela luz e pelo cheiro do assado. São pequeninos, ágeis, buliçosos. Laura é demasiado boa comigo e asseguro-lhe estar contente por ter aceitado o meu amor e por ter dado o seu, que tanto bem me faz.<br><br>Depois de comer, Laura levanta-se do tosco tronco de árvore espalhado no chão e põe-se a observar as ervas e as flores. Elas têm movimentos lentos; um arbusto floresce na encosta do morro do Jaraguá:<br>- “Belas flores” – disse ela, olhando ao redor da mata.<br><br>Não por aquelas ricas e presunçosas flores dos jardins da cidade ou dos vasos de cristais dos apartamentos, mas pelas flores humildes que são o adorno da floresta; por esta pequenina flor violeta, por esta campânula de um azul tão tênue, por estes cravos selvagens que oferecem generosamente o seu perfume noturno; por aquelas imensas flores brancas e castas, que abrem em silencio com o balanço do vento os cálices que me fazem pensar e vê-las respirar. E as abelhas gulosas vão de uma a outra, agitando-as no sugar do perfumado néctar. <br><br>Naquele momento Laura é para mim um espelho onde as coisas feias se desvanecem e as outras se aperfeiçoam. De pé ao meu lado, ela sorri da contemplação do campo. Aquele passeio pelas encostas do Jaraguá é o cenário perfeito para sentir as coisas da natureza. Sentamo-nos juntos. <br><br>De tempos em tempos, as ramagens oscilavam em leve balanço; era o vento que cumpria a sua transcendental missão de transportar o pólen para engendrarem-se nas novas florações. Um insetozinho verde escalava infatigavelmente, o tronco de uma árvore. Seus olhos quase cegos mal lhe serviam de foco e às vezes erguia-se nas patinhas dianteiras tateando no vácuo, temeroso de novos obstáculos: <br>- “Ah! Laura… Você não imagina o bem estar de estar rodeado pela natureza, de comer, não obrigatoriamente sentado em uma cadeira, mas sim esparramado na gramínea, sem mesa, sem receio de entornar o copo do vinho, sentir o prazer, sem rumo, entre os aromas e cheiro peculiar da resina das árvores, de deitar-me e olhar para o céu”.<br><br>Inclinada para mim, Laura ouve com vivo interesse a minha fala. Explico-lhe o prazer de caminhar pela floresta, que me trás a ilusão de ser filho da mata e da natureza. Senti que o olhar de Laura penetrava no meu, como querendo esmiuçar a minha imaginação. Sento-me novamente no tosco tronco da árvore e adormeço. Logo os lábios de Laura passam sobre os meus. Acordo:<br> – Ah! “És tu Laura, a deusa feiticeira do bosque encantado” – disse-lhe sorrindo.<br><br> Nesse instante, uma gota de chuva arranca-nos da imobilidade, daquele êxtase:<br>- “Está chovendo!”<br><br>E a meio do caminho, já de volta do passeio no entorno do Jaraguá, em um ímpeto comovente, abraça-me e beija-me repetidas vezes, fugindo logo em seguida da chuva:<br> – “Até breve!” – disse-me sorrindo ao se afastar. <br><br>São cinco anos passados.<br><br>Subitamente quando mais abstrato estou, imagino ouvir vários passos furtivos ao meu redor. Volto-me de repente procurando pelos teus no vazio da rua deserta e nada… Nada! Nenhum indicio, nada… Onde andará a minha linda donzela do Jardim Líbano?<br><br><br>E-mail: [email protected]