A didática Dona Linda

Dona Linda é o apelido de minha mãe, batizada por Deolinda. Nascida em Sertãozinho (SP), perto de Ribeirão Preto, veio mocinha viver na capital, o que adorou, pois era muito dura a vida na roça. Aqui encontrou o irmão do marido de sua tia, com quem viveu a primeira vez em que veio para são Paulo sem sua família. 13 anos mais velho, e apaixonado, o irmão do "tio" vivia importunando-a com brincadeiras de dizer que um dia ia se casar com ela. Ele também nasceu na mesma região, mas já não trabalhou na roça e veio para São Paulo bem antes.
Tempos depois, quando ela já vivia com a família na cidade grande, acabou cedendo e os dois se casaram, em 1951, na antiga e famosa Matriz da Freguesia do Ó. Aquela que tem ao lado uma pizzaria também famosa e tradicional: Pizzaria Bruno. O bairro, aquele que rendeu uma música do Gil sobre o Punk da periferia, lembram?
Mesmo nascida no interior, minha mãe sempre teve e tem adoração por esta cidade. Vivia olhando as cidades nas placas dos carros com saudades de sua cidade Natal, mas até hoje preza viver na capital.
Foi com o mesmo amor que sempre fez questão de nos ensinar as ruas principais, prevenindo-se da nossa futura necessidade de ter que ir ao centro para trabalhar:
– Está vendo aquela rua? É a Rua Ipiranga, vai sair na Av. São João. Logo mais chega o correio, o Anhangabaú, a Praça do Patriarca, etc.
Eu me lembro que não gostava de prestar atenção, pois adorava grudar o nariz na janela e ficar cantando, além do que não via importância naquelas aulas que minha mãe nos dava.
Meu pai me mostrava o Bicho Preguiça no parque da Luz, me levava para andar de escada rolante, comprava doces na Kopenhaguen, chocolate seresta num mercadinho do Bom Retiro e ia cochilando no ônibus. Já minha mãe, com o seu lado prático e didático procurava atualizar no nosso consciente os roteiros da grande cidade, que foram tão úteis: para minha irmã mais velha que fez cursinho na Av. São João, para mim quando fui procurar meu primeiro emprego e etc.
Mesmo que os filhos não levem muito a sério os conselhos, as instruções dos pais, com o passar do tempo e com a nossa experiência os pontos vão se ligando e as lições, de um jeito ou de outro, vão fazendo efeito. Por isto e por tantas outras coisas agradeço a minha mãe que tem uma memória excelente e poderia contar milhares de fatos sobre a cidade, principalmente os cinemas que freqüentava bastante com o seu "quase tio" namorado e uma prima e grande amiga, na sua juventude.
Se ela tivesse acesso ao computador enriqueceria esse site com muitas histórias como a de minha irmã mais velha, em frente à Loja Peter's se olhando no espelho achando que era eu, a irmã do meio, em plena cidade, quando deveria estar no colégio na Freguesia do Ó – "O que a Vera está fazendo aqui". Está certo que éramos parecidas na época…
Fica esse texto como homenagem à nossa grande orientadora Dna Deolinda.

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