A couve refogada e a baba do quiabo

Meu tio Jorge que durante muitos anos morou na Lapa de baixo, na Rua Tenente Lande, era casado com minha tia Dona Neuza. Eles tiveram dois filhos, meu primo Rubens e sua irmã, que recebeu o nome de Daodécia; talvez em razão de meu tio ter sido taxista a vida inteira, profissão essa que na época era bastante rendosa, por que nos anos quarenta e cinquenta a maioria das pessoas não possuia carro próprio e utilizavam muito os poucos táxis existentes em São Paulo. Batizados, casamentos, festas, bailes, viagens, pic-nic, para quase tudo o paulistano recorria desse tipo de serviço.

Como eu, minhas irmãs e minha mãe morávamos na Freguesia do Ó, bairro vizinho a Lapa – separados na época apenas pelo Rio Tietê, isso bem antes da inauguração das Marginais, a maioria das vezes nós íamos visitar tio Jorge passeando e a pé mesmo, coisa muito comum na época (longos passeios caminhando pelas ruas ainda sem asfalto de nossa querida e ainda "pequena cidade de São Paulo"). Naquele tempo quatro ou cinco quilômetros não eram consideradas longas distâncias pelos moradores das periferias.

Estas caminhadas eram sempre compensadas com algumas guloseimas como sorvetes ou bijus, se casualmente encontrássemos algum vendedor do mesmo pelo caminho, com seus latões de bijus nas costas, acionando fortemente suas catracas barulhentas.

Às vezes também encontrávamos pelo caminho algum vendedor de quebra-queixo e machadinho, aí então a festa era completa e o caminho tornava-se bem mais curto.

O mesmo não acontecia com meus primos Rubens e Daodécia, que por terem um pai taxista eles nunca vieram a pé até minha casa na Freguesia. Meu tio era quem os levava em seu táxi, um antigo mas muito bem cuidado Chevrolet preto-1947.

O tempo passou e minha prima, a Daodécia, acabou namorando e ficando noiva de um grande amigo meu dos tempos escolares, o Paulino de Freitas, mais conhecido como Mineiro, por ser filho de mãe natural de Alfenas em Minas Gerais.

Paulino era um cara muito bacana e educado, vivia muito bem com a família, seu único e verdadeiro problema era não gostar de comer quiabo e couve refogada, coisa que sua mãe, como mineira, adorava fazer e comer praticamente duas vezes por semana.

Paulino tinha verdadeiro pavor de quiabo, algumas vezes ele chegava a comer fora, só para não ver aquele panelaço de quiabo babando na panela ou couve refogada fazendo-lhe companhia a mesa.

Para não magoar a mãe, ele sempre guardou esse detalhe consigo e jamais contou a ninguém esse seu "segredo" familiar. Hoje eu acredito que eu era uns dos poucos ou talvez a única pessoa que conhecia esse particular do Mineiro.

No dia de seu casamento com a minha prima a Daodécia, ocorrido em 10 de junho de 1959, me lembro como se fosse hoje, por mais incrível que possa parecer que ao abraçá-lo na porta de entrada da igreja, para lhe dar meus parabéns e desejar-lhe muitas felicidades, rimos escandalosamente quando ele sussurrou em meus ouvidos o seguinte:
– “Tutu acho que agora eu estou livre do quiabo da minha mãe para o resto da minha vida”.
Nosso riso foi tão exagerado, que naquela hora todo mundo, inclusive a noiva – minha prima, quiseram saber do que se tratava.

Não falei nada, é claro, e nós por essa mesma razão riamos mais ainda.

Mas com o decorrer da festa aos poucos a coisa toda foi ficando esquecida, o segredinho mantido e aos poucos a festa foi chegando ao fim. Quando os recém-casados seguiram para a lua de mel em Poços de Calda, do táxi do meu tio para a agência da Viação Cometa, que nessa época antes da criação das Estações Rodoviárias era o local onde se davam o embarque e desembarque dos passageiros. Essa agencia ficava na esquina da Avenida Ipiranga com a Avenida Rio Branco.

E assim minha prima Daodécia e o seu agora marido Paulino, passaram quinze dias maravilhosos em Poços de Caldas gozando a esperada lua de mel, e nesse clima de felicidade voltaram já muito saudosos para essa nossa querida cidade, onde dois dias depois assumiriam suas atividades normais já refeitos do cansaço da festa e da posterior viagem a Poços de Caldas.

Dois dias depois, já refeito Paulino rumou bem cedo para o escritório onde trabalhava e exercia suas funções como advogado.

Trabalhou o dia todo e à tardinha antes de chegar a casa, teve que enfrentar uma forte chuva, da Rua Senador Feijó onde trabalhava, até a Praça do Correio onde pegava o Bonde Lapa para voltar para casa.

Quando chegou a casa na Avenida Nossa Senhora da Lapa, notou que sua querida esposa Daodécia, estava parada no terraço frente ao portão de entrada, toda feliz e risonha a sua espera.
-“Querido”, disse ela, “você nem imagina a surpresa que eu fiz para você nesse seu primeiro jantar, com ajuda da sua mãe que passou por aqui e me ajudou”.
– “Que bom meu amor! O que é que vocês prepararam? Posso saber?”
-“ Claro!”, respondeu ela, “ Arroz, carne seca com quiabo e aquela sua couvinha refogada.”
(risos)

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