Corrida Internacional de São Silvestre. Foto: Marcelo Iha/ SPTuris

A corrida de São Silvestre

Como todas as coisas importantes no mundo, a Corrida de São Silvestre teve seu auge nos anos 1960. A São Silvestre era tão importante que brasileiro não ganhava. O pódio tinha cinco lugares e, quando um brasileiro subia nele, vinha chuva de papel picado dos apartamentos do Edifício Savoy. O morador mais ilustre do edifício, o Sr. Dener Pamplona de Abreu, jogava retalhos de seda e tafetá.

Não sou daqueles que acham que a Globo é a culpada de todos os males do Brasil; antes dela vêm o Bolsonaro, o Neymar e o Zé de Abreu. Mas, não resta dúvida que a mudança do horário da corrida, por razões comerciais, tirou todo o charme da corrida, que não era pouco.

A São Silvestre era um acontecimento. Fazia parte do calendário, não apenas da cidade, mas, muito mais que isso, das famílias. No dia 31 de dezembro, tudo tinha que estar pronto, no máximo, até 23h30. Comidas, bebidas, banhos, roupas e tudo o mais que fosse necessário para o Réveillon. Quando faltasse quinze pra meia-noite, todo mundo em frente à televisão para a largada da corrida na Avenida Paulista, 900, prédio da Fundação Cásper Líbero, antes dos cursinhos e das faculdades.

Os jovens não saíam para o baile de Réveillon antes da chegada do vencedor, que demorava uns 23 minutos, mais ou menos, nos 8 km de percurso, mas não esperavam a premiação. Só as crianças e os velhos, todos com mais de 39 anos – nos anos 1960, velho era quem chegava aos 40; até pijamas compridos listrados, meus tios de 40 usavam. Os beijos e abraços de Ano Novo, também, tinham que esperar.

A São Silvestre era coisa organizada com mais ou menos 500 corredores largando, todos atletas. Não tinha o circo de hoje em dia. Faixas de “Fora Fulano”, “Solta Sicrano”, “Prende Beltrano”, fantasias de índio, de político ladrão, eram impensáveis. Não havia fantasias, mas índio e político ladrão sempre existiram, embora aqueles estejam diminuindo.

São Miguel participava de todas as edições. A equipe do CRNQ era forte, mas a gente torcia mesmo era pro João do Almoxarifado e pro Cansa Cavalo. Em 1965, o Cansa chegou em 487° lugar, sua melhor colocação. Foi homenageado na Vila Nitro Química com um churrasco e um baile, naquela época chamado de risca faca.

Agradeceu a homenagem e frisou que o que não lhe permitiu fazer melhor foi a subida da Brigadeiro. Entrou na Brigadeiro às 2h30 da manhã, cruzou a linha de chegada às 4h15. Em São Miguel chegou às 11h, depois de dois bondes e o trem da Variante.

A subida da Brigadeiro sempre foi a maior atração da corrida. E o maior pesadelo dos atletas, em especial, dos nativos. Ali é que tudo se decidia. Todo ano um brasileiro entrava na avenida na primeira colocação, mas quando chegava na Paulista já era oitavo ou nono. Nos últimos 300 metros, já na Paulista, o coitado ouvia os maiores desaforos e isso num tempo em que politicamente incorreto significava, tão somente, escrever palavrões na cédula de papel nas eleições. Já o belga Gaston Roelants parecia até que morava na Bela Vista. A subida da Brigadeiro para ele era um passeio. Ganhou quatro vezes a prova.

Em casa, todos ligados na TV, sofrendo as angústias da subida da Brigadeiro. Tinha um tio que até suava; outro, asmático, mal o corredor saía do Largo São Francisco já pedia sua bombinha. Nós, crianças, perguntávamos para o nosso tio mais sabido: “Quem era o Brigadeiro Luis Antônio?”. Era um militar português, nascido em Amarante, mas radicado em São Paulo. Podre de rico, chegou a ter sete padarias só na Mooca, e 19 parentes dele são nomes de ruas em São Paulo.

Só vim a conhecer a Brigadeiro muitos anos depois. Até 1967, quem morava em São Miguel e conhecia o Tatuapé era considerado um sujeito cosmopolita e viajado. Na minha primeira vez na avenida, indo para a sede do Baú da Felicidade, carregado de pacotes, guardei fôlego nos primeiros 800 metros e deslanchei nos últimos 1200. Exatamente como meu tio sabido aconselhava. Levei 45 minutos pra chegar na Paulista.