A Cidade dos Estudantes – parte I

Quase cinco anos após a Proclamação da Independência, foi criada por Lei Imperial de 11 de agosto de 1827, a primeira escola de ensino jurídico do Brasil. A Academia de Direito, então criada, foi instalada na acanhada Cidade de São Paulo, o que desencadeou na Corte, veementes protestos por parte de representantes de cidades mais adiantadas como Olinda, Salvador e Rio de Janeiro.

Na cidade, sem qualquer infraestrutura, não preparada para recebê-los, os estudantes vindos do interior ou de outras províncias, tiveram que se instalar precariamente nas chácaras ao redor do centro, nos conventos e em repúblicas, formadas em casas construídas com esta finalidade.

A história da cidade, a partir de 1828, girou em torno do funcionamento da Academia de Direito, que veio modificar os costumes e o estilo de vida, movimentando o comércio, estimulando as atividades culturais e aquelas ligadas ao esporte e lazer. A cidade se tornou mais alegre no embalo das serestas e as moçoilas, suspirando nos balcões, puderam sonhar aventuras românticas, ao som das serenatas, no enlevo dos versos condoreiros dos poetas acadêmicos. São Paulo nunca seria a mesma depois da Academia.

Porém, até meados do século 19, quem andasse pelo centro urbano da Imperial Cidade de São Paulo, constataria que apesar da pompa ostentada no nome e a existência da Academia, a "cidade dos estudantes" deixava muito a desejar, mesmo para os padrões brasileiros da época.

Embora já fossem produzidos tijolos em São Paulo, estes ainda não eram utilizados em alvenaria, pois eram empregados unicamente para ladrilhar os pisos das construções. As coberturas das casas já eram feita com telhas cerâmicas, porém estas telhas eram de feitura primitiva, moldadas nas coxas dos trabalhadores escravos, desde os primeiros tempos da Colônia e ficaram conhecidas como "telhas coloniais" ou "telhas paulistas".

O viajante poderia também testemunhar o trissecular marasmo com que transcorria a vida nesta "quase vila colonial", ironicamente conhecida como a "cidade de barro", por suas pobres construções de taipa de pilão, a maioria delas com um único piso. Em meio à monotonia arquitetônica, realçada pela brancura das caiações, uns poucos prédios mereciam algum destaque, como a Câmara Municipal, o Palácio do governo e alguns conventos e igrejas.

O centro urbano de São Paulo que, por três séculos, ficou enclausurado na colina histórica, entre os ribeirões Anhangabaú e Tamanduateí, começa então a expandir-se muito além dos limites do antigo rossio. A cidade que, mesmo após a Independência do país, em pleno Império, mantinha ainda a aparência de uma acanhada Vila Colonial, cansara de amesquinhar-se, de ser caipira e, então, começa a dar os primeiros passos rumo à futura metropolização, impulsionada pela conjunção de alguns fatores econômicos e sociais favoráveis, particularmente a atividade cafeeira. A inércia que estigmatizara a Vila nos séculos anteriores vai sendo aos poucos substituída por um processo de crescimento dinâmico e seria pretensioso tentar discutir em profundidade as enormes transformações urbanísticas, socioeconômicas, políticas ou culturais, ocorridas em nossa sociedade na segunda metade do século 19, motivo pelo qual nos restringiremos a abordar apenas alguns tópicos.

No processo de reconstrução da cidade, o Rio Tietê e as várzeas ao seu redor desempenharam relevante papel, pois aqui se formou um dos principais pólos produtivos de materiais construtivos da região. A areia era extraída nas "descobertas", no próprio rio e na várzea de onde também se extraia a argila que, nas olarias, transformar-se-ia em tijolos, telhas e outros materiais cerâmicos. Às margens do Rio Tietê, entre o Sítio Piquerí (Tatuapé) e Penha de França, durante aproximadamente 100 anos (1850 a 1950) existiu uma grande concentração de olarias, em sua maioria pertencente a imigrantes italianos e que muito contribuíram na reedificação em alvenaria, da antiga "cidade de barro".

O maior sítio da margem direita do Rio Tietê, defronte ao Tatuapé, foi o Sítio Bela Vista, cuja produção oleira era irrisório, se comparada com a dos seus vizinhos da margem esquerda, mas por muitos outros motivos representou também um papel relevante na reconstrução da cidade. O Sitio Bela Vista possuía uma área de 5850250 metros quadrados que, no início do século passado, foi desmembrada em duas glebas. A gleba maior, com 4850250 metros quadrados deu origem ao bairro de Vila Maria e a gleba menor com 1000000 de metros quadrados foi destinada à implantação do Jardim Japão.

Este sítio, Tietê, passou pelas mãos de inúmeros proprietários, entre eles o comendador Fidélis Nepomuceno Prates (04/1858 a 02/1876) e Antonio Bernardo Quartim (11/1876 a 06/1891), personagens de destaque na sociedade paulistana de então Antonio Bernardo Quartim, capitão da Guarda Nacional, em sua atribulada existência, exerceu inúmeras funções e ocupou cargos públicos de relevo. Foi empreiteiro de obras (principalmente obras públicas), vereador, empresário teatral, síndico do Seminário da Gloria e administrador do Jardim Botânico da Luz durante 30 anos, entre outras tantas atividades. Encaminhado pelo pai, Antonio Bernardo iniciou, ainda muito jovem, a carreira de empreiteiro de obras. Por volta de 1840, assumiu o primeiro compromisso, ao encarregar-se da reforma do antigo Teatro da Ópera ou Casa da Ópera, situada no Pátio do Colégio onde, em 1822, D. Pedro I havia sido aclamado imperador após o Grito do Ipiranga e, até então único espaço de convivência sociocultural da cidade.

A reforma da Casa da Ópera jamais foi concluída, mas em 1858, o Governo Provincial anunciou a construção de um novo teatro que haveria de ser erguido no Largo de São Gonçalo (antigo Largo da Cadeia e hoje Praça João Mendes), de frente para o largo e no espaço hoje ocupado pelos fundos da Catedral e Quartim foi o empreiteiro contratado para construí-lo.

Em 04 de setembro de 1864, o novo teatro, embora inacabado, foi inaugurado com o nome de "Teatro São José" pelo Presidente da Província, barão Homem de Melo, em uma bela solenidade seguida por seis dias de ruidosas festividades nas quais a estudantada da Academia de Direito teve significativa participação. A inauguração do novo teatro na "cidade dos estudantes" só poderia mesmo ser grandemente comemorada pelos acadêmicos, que viriam a ser seus mais assíduos e entusiasmados frequentadores e dramaturgos. Na inauguração, foi levado à cena o drama "A Túnica de Nessus", do acadêmico Sizenando Nabuco, irmão de Joaquim Nabuco.

Continua…

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