Muito se fala e se comenta a respeito dos bairros do Braz e Belém (Belenzinho), mas um pequeno detalhe pouco mencionado e bastante significativo era o lazer que estes tradicionais bairros ofereciam ao seus habitantes… No espaço do número 1000 (mais ou menos) da Avenida Rangel Pestana até a Celso Garcia, precisamente na rua Belém, existiam, nada menos que 9 cinemas, considerando o Colombo, no Largo da Concórdia e o cine Oberdan. Senão, vejamos: Olímpya, Piratininga, Gloria, (Rua do Gasômetro) Colombo, Oberdan, Braz Politeama, Universo, (que tinha um teto que se abria nas noites de verão) Róxi, Iris e até o São José, no largo São José do Belém. Era uma Brodway tupiniquim, oferecendo, além dos cinemas os footings no largo da Concórdia, os “vai-e-vem” da Rangel Pestana, teatros como o Colombo, que apresentava sempre o Nino Nelo, Procópio Ferreira, o Politeama, salões de dança como do Clube Carlos Gomes. Bons restaurantes como o famoso “1060” a Adega do Braz, o Garoto, o Brazeiro e pizzarias como a do Luiz, a do Castelões, e a famosíssima Confeitaria Guarany. Eram um deleite os passeios e os namoros nestes locais.
Como faziam todos os garotos, nas décadas de 40 e 50, íamos às matinês do Gloria ou do Piratininga, que se auto-denominava “o maior cinema do Brasil” (e era mesmo), só em que todos, desse conjunto mencionado, as ditas “poltronas” eram assentos de madeira, duríssimos, sólidos pra suportar as traquinagens que aprontávamos. Nenhum deles era lançador. Os filmes eram lançados nos cinemas do centro, tais como Metro, Art-Palácio, Ipiranga, Marabá etc. As seções das matinês começavam às 14 horas e os programas contavam com dois longas e, no intervalo, apresentavam seriados, tais como Flash Gordon, O Sombra, O Arqueiro Verde etc. e, vez ou outra, um desenho animado. Nestes intervalos é que nós tentávamos imitar todos os astros de faroeste ou gangster, na tão decantada brincadeira de “mocinho e bandido”. Sem nenhum constrangimento, na base do “tocs” (sorteio onde todos punham os dedos numa roda, de 7 ou 8, como no “par ou impar”, coletivo) se escolhia quem seria o “mocinho” e os “bandidos”, com o pré-estabelecido de que os bandidos “morreriam” e só o mocinho que não. E era aquela corrida, aquela algazarra, aquela barulheira, correndo entre os assentos e os corredores, os sons onomatopéicos de tiros (bang-bang) e “feridos a bala”, alguns chegando a um realismo infantil, jogando-se ao chão, depois de serem “baleados”. E tudo por apenas 1.500 réis, (mais ou menos 1 real e 50 centavos).
Numa deferência toda especial, e por ser muito grande e ter saídas, além da Rangel Pestana, outra pela Rua Martim Buchard, travessa da Rangel, lançaram, no cine Piratininga, simultaneamente a um cinema do centro, o maior sucesso de bilheteria do momento: “Ali-Babá e os Quarenta Ladrões”, com John Hall e Maria Montez. Desta vez criamos uma nova travessura: todos os acentos, como disse acima, eram de madeira, montados e presos no piso com parafusos. Todas as partes dos acentos; lateral, acento, espaldar, eram montados e presos entre si com pequenos parafusos e uma “porquinha” como segurança. Ahhh, um prato cheio para as maquinações da molecada. Munidos de pequenas chaves de boca (cada um trazia uma de casa), durante os intervalos e as brincadeiras de “mocinho e bandidos”, que eram tolerados pelos lanterninhas, cada garoto pegava um acento e tirava todas as “porquinhas” que eram todas iguais, meia polegada, se tanto, e deixavam os acentos na mesma posição, aguardando a primeira “vítima”. Ao sentar e se espalhar pelo chão, seguido de uma gostosa gargalhada (e fuga) dos garotos, todos se divertiam, inclusive as “vitimas”. Divertimento um tanto ou quanto ousado, mas não machucava ninguém, pois a freqüência em matinês era na sua grande maioria de jovens e garotos, como nós.
Assim eram as mazelas da turminha, muito divertidas.
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