A Boemia dos duros…

Fui um frequentador da noite paulistana, nos saudosos anos 1970, onde o centro de São Paulo era extremamente atraente, encantador, para quem curtia nas madrugadas a boemia saudável.

Minha vida de boêmio iniciava-se nas sextas-feiras no Pingão do Largo do Arouche. Eu e o meu inseparável parceiro de baladas, Zé Espanhol, chegávamos lá pelas 22 horas e nos acomodávamos em uma mesinha na calçada. Pedíamos uma suculenta porção de calabresa no molho de mostarda, acompanhada de pão francês “fresquinho” e degustávamos as deliciosas batidas – a minha preferida era a de maracujá.

Ali geralmente encontrávamos alguns conhecidos, pois éramos habitués e aquele ponto era um point para o início das madrugadas.

Após umas e outras, lá pela meia-noite, íamos caminhando tranquilamente (naquela época era possível) até a Rua Major Sertório na deliciosa Boate Michel, onde éramos frequentadores contumazes. Meninas selecionadas, várias delas extremamente atraentes, pois a clientela era seleta, só gente da mais fina qualidade…

Eu e meu parceiro Zé Espanhol, por força do destino, éramos dois “duros”, sabe como é, de grana curta, contadinha para passar o mês e não podíamos ser perdulários. E ali o mixe das moçoilas era meio que salgado de pagar! Nem pensar, pois ainda tínhamos que pagar o couvert artístico para poder entrar e lá permanecer até o final das madrugadas onde descolávamos sempre uma companhia feminina.

Toda esta artimanha pedia uma engenharia: primeiro nos tornamos habitués, conseguimos a simpatia do leão de chácara, um gigante de dois metros com seu impecável paletó xadrez e uma mão que mais parecia uma morsa, que eu apelidei de “Miúdo”.

Feito isso tínhamos a amizade do barman, o Carlito, simpático, gente finíssima, ficávamos encostados, quase “estacionados” no balcão, e pedíamos um drinque para passarmos a noite. E o Carlito, como era nosso chegado, ia renovando a custo zero nossas porções de amendoins ou pipocas.

Como éramos habitués, conhecíamos a maioria das moçoilas e nos tornamos “amiguinhos”; éramos tirados para dançar embalados por belas músicas ao vivo, por um conjunto musical, com muito Creedence Clearwater, Elvis, Schoking Blue, Amado Batista, Roberto Carlos e por aí vai….

E lá pelas três horas da manhã, sempre éramos solicitados para dar caronas àquelas que tínhamos mais simpatia. Gentilmente fazíamos esta cortesia, pois infalivelmente quando chegávamos ao destino éramos convidados a entrar para um fim de noite, e aí sim… a nossa noite de boemia ficava completa.

Acreditem… só quem viveu esta delícia da noite paulistana saberá entender o quanto era bom…

a Boemia dos duros…