Todos os dias, às 5h da tarde, depois da saída do grupo Escolar Miss Browne, na Vila Pompéia, o moleque ia até a bicicletaria do Juvenal, na Rua Cotoxó 25. Consulta o bolso. Tinha um cruzeiro e 50 centavos, dinheiro ganho com o trabalho de gandula de bolas de tênis no Palestra Itália; o valor era suficiente para o aluguel de meia hora de passeio com a bicicleta. Escolheu a mais bonita entre tantas outras colocadas em exposição na entrada da loja.
O moleque deu uma sacudidela na juba de leão tentando ajustar a vasta cabeleira que lhe caia sobre os olhos. Escolheu uma magrela preta, de pneus grossos e ajustou o selim do acento até a altura dos pés nos pedais. Naquela época as ruas do bairro de Vila Pompéia eram quase todas de terra batida sem quase nenhum movimento de veículos que pudessem atrapalhar o passeio de bicicleta. Aquilo era um hábito costumeiro, sadio, uma delícia, pedalar pelas planícies e montanhas do bairro.
Como das vezes anterior usava uma camisa branca de gola aberta modelo Jean Sablon, tão em moda na época, que tanta graça lhe dava. Setembro era o começo da primavera esplendorosa e todas as ruas do bairro se revestiam e se enfeitavam de verde claro. Pôs-se a caminho da Avenida Pompéia uma subida íngreme, alongada, resfolegante, cansada e do alto do topo da íngreme avenida punha-se a deslizar ladeira abaixo, sentindo a fresca da tarde a bater-lhe no rosto curtido de sol. Estava em plenos anos da Segunda Grande Guerra Mundial e tudo era complicado. O menino, depois do passeio de bicicleta pelo bairro, tinha que levar a marmita que a mãe preparava e servia aos empregados das Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo, na Água Branca para completar o orçamento doméstico, tão difícil naqueles tempos bicudos da década de 40.
Mas o sonho de possuir uma bicicleta própria nunca tinha deixado de compor o desejo do menino. Um dia quem sabe, o pai poderia comprar uma, que na época, custava muito caro e não havia crediário para favorecer a compra. Tinha que ser o pagamento a vista. Para tanto, tinha que começar juntar o dinheiro e só Deus sabe por quanto tempo, seria necessário esperar para adquirir a tão cobiçada bicicleta. Como não havia possibilidade de comprar de imediato, o jeito era alugar uma todos os dias, quando o dinheiro dava. Quando, às vezes, a firme consistência da sorte lhe era favorável, conseguia um dinheiro extra como engraxate de sapatos no Largo da Pompéia, e para completar o trabalho de gandula de bolas de tênis, costumava ganhar uma pequena importância em dinheiro, suficiente para pagar até hora e meia de aluguel.
E assim o tempo foi correndo. Outras atribuições foram surgindo, e depois de uma boa noitada de jogos de futebol no campo da Rua Turiassu, os frequentadores do estádio deixavam os automóveis estacionados nas ruas próximas do campo do Palestra Itália e a molecada da rua se prestava para tomar conta dos veículos estacionados, mediante uma gorjeta, a critério do torcedor. Ás vezes a gorjeta era generosa, 50 centavos, até um cruzeiro, dinheiro esse, que dava para comprar até 20 marias-moles, várias paçocas de amendoim ou outros doces expostos na vitrine da mercearia do pai do Badico. Que fartura por alguns centavos de cruzeiros. E a vida seguia sempre na mesma rotina.
Ás vezes adoecia com dor de garganta e tinha que ficar de molho de cama, com um chumaço de algodão embebido no álcool e um pano de seda enrolado no pescoço, até que o processo infeccioso fosse embora. Um comprimido de Celofeno receitado pelo farmacêutico do bairro para baixar a febre e nada mais. Da janela do quarto, ouvia o chilrear da molecada brincando no meio da rua, jogando taco, ou picão; outras vezes, bolinhas de gude ou futebol de rua com as traves feitas de tijolos de construção. Ouvia agitado na cama o ruído do bater das bolinhas de vidro coloridas se entrechocando entre a gritaria da molecada que fervilhava na calçada defronte de sua casa.
Quando iria completar 11 anos, o pai teve que se mudar de casa porque o dono pediu para sua própria moradia. Iriam morar no Alto da Lapa, na Rua dos Jesuítas, em uma bifurcação da Rua Pio XI, próximo da Estrada da Boiada. O lugar na época não tinha nenhuma infraestrutura, ausência de uma mercearia, açougue, não havia água encanada, saneamento básico eram efetivamente um sonho das mil e umas noites; energia elétrica também não tinha, era necessário o uso do lampião de querosene. O fogão era de tijolos construídos dentro da cozinha, usando o carvão como combustível; não havia também transporte coletivo, apenas uma linha precária de ônibus da empresa Bacarelli com seus ônibus Volvo antigos, parecidos com jardineiras interioranas que servia o bairro nos horários préestabelecidos, ou seja, um carro às 6h30 da manhã, outro às7h e nada mais.
À tardinha, no lusco fusco, outro carro às 6h da tarde e o último às 7h da noite. Se ficassem doentes, estavam à mercê da sorte. Telefone uma piada de bom gosto; água encanada só de poço e tirada com sarilho na boca da cisterna. E dentro deste cenário desolador iam tocando a vida com a ajuda de Deus e nada mais. Ao completar 14 anos de idade, o menino arrumou um emprego como office boy no Banco Nacional Imobiliário, na Rua Guaicurus no bairro da Lapa. Como não dispunha de condução para ir trabalhar, o jeito era ir a pé até a Lapa e de lá pegar um bonde até o local de trabalho.
Finalmente, após muito trabalho e sacrifício, o pai conseguiu ajuntar o dinheiro e comprar a tão sonhada bicicleta. Era uma da marca Philips, importada da Inglaterra, aro 28, pneumáticos finos, um farol movido por um dínamo que tinha atritava na roda de trás fornecendo luz somente com a roda em movimento. Os olhos do moleque brilharam ao receber o presente. Agora sim, podia pedalar a vontade pelas planícies e colinas do Alto da Lapa. Diariamente ia de bicicleta pela Rua Cerro Corá, toda ela de terra vermelha até o alto do morro do Careca onde pegava a Avenida Heitor Penteado, um pedaço asfaltado até a Rua Cayowaa no bairro do Sumaré. A paisagem era um sortilégio de visão que sublimava os caminhos desertos como o menino nunca havia experimentado até então, naquelas tardes de dias venturosos, em pleno milagre da natureza.
Do alto da montanha, avistava a distância os cimos levemente azulados e transparentes da serra da Cantareira. Uma alegria, uma espécie de gratidão para com a beleza da paisagem daqueles tempos de São Paulo ainda interiorano. E o menino pedalava passando por chácaras de plantações de verduras pelos bosquezinhos formados por caramanchões e árvores frutíferas. Quando chegava o lusco fusco era hora de voltar do passeio que, após a sideral ablução da natureza, afigurava-lhe espiar os campos desertos ao redor da Rua Heitor Penteado e o apelo dos passarinhos, enchendo o ar de vibrações sonoras em busca de algum galho de árvore para o repouso do fim da tarde. O leve sussurro do vento batia-lhe nas faces conforme pedalava. Desceu a Rua Cerro Corá a toda velocidade embicando os pneus nas ondulações do terreno fazendo a bicicleta saltar perigosamente como se estivesse voando pelo solo vermelho e poeirento da rua. Mas tinha sempre equilíbrio do corpo. Era jovem, magro, ágil e controlava o guidão com destreza evitando que perdesse o equilíbrio e caísse.
Aquela bicicleta viera encher todos os momentos de prazer ao pedalar por ruas desertas, pelos descampados como a barroca do Sol Poente no Alto da Lapa, onde tinha uma visão privilegiada de toda a várzea do Rio Pinheiros, das matas que circundavam o seu curso, porque naquele tempo não havia ainda as marginais. No fim da tarde observava o por do sol para os lados do Jaguaré, e dos esqueletos das construções dos prédios da futura Cidade Universitária. Uma coisa chamava-lhe a atenção. Um aviãozinho "T-Meia" de duas asas passava sempre na mesma hora sobre os campos de Vila Madalena e um paraquedista saltava diariamente sobre o mesmo local. Depois o avião fazia uma curva sobre a ponte do Jaguaré e ia pousar em um campinho próximo da cidade Universitária. Este era o São Paulo de outrora, onde tudo era aprazível, acolhedor. Os pedregulhos estalavam sobre as rodas da bicicleta. Os caminhos cortados e ele ouvindo o sussurro do vento no rosto. Fim de tarde. O menino não soube explicar se é a paisagem bucólica dos caminhos percorridos ou o sossego das ruas e o desejo durante todo o dia de pedalar a sua tão sonhada e conquistada bicicleta própria.
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