A bela flor do Salgueiro

Aqui, a personagem principal da história a Oiran Mikiko (Tereza) existiu de fato, porém, procurei manter no anonimato o seu verdadeiro nome; o restaurante também fez parte da narrativa, no entanto, mantive também no anonimato o seu nome comercial para evitar a propaganda gratuita e desnecessária. Já faz alguns anos que me acodem persistentemente à memória o tempo passado no bairro japonês de São Paulo, na região da Liberdade, é que resolvi escrever alguma coisa a respeito das minhas recordações daquele tempo. O Luar de Agosto era um tradicional reduto de chá (ochaya) e um conceituado restaurante (ryótei), um estabelecimento da minha preferência na região da Liberdade pela sua boa acolhida e excelente e refinada comida oriental servida em pratos variados. <br><br>Sucedeu-me a excelência da primazia de encontrar uma linda moça japonesa caracterizada como uma maiko e que ela tinha vindo recentemente diretamente de Quioto no Japão, lugar que é considerado por muitos a região onde a tradição de gueixa é mais forte, inclusive em Gion Kobu. Lembro-me que o seu tempo era medido pela queima de um bastão de incenso, chamado de "senkôdai" (perfume com incenso) ou "gyokudai" (taxa de joia). Em Quioto o termo usado era "obana" e "banadai" que significam "taxa de flor" em que as gueixas traduzem as suas aptidões para entretenimento do cliente. Na realidade era ela Mikiko, uma Oiran tradicional cortesã de alta classe japonesa, portanto, diferente das gueixas tradicionais ou as maikos. Era ela uma atraente, elegante e culta moça japonesa. Ela estava caracterizada pelo quimono no traje simbólico da roupa e da maquiagem tradicional refletida na imagem de uma autêntica gueixa japonesa. No entanto, curiosamente, era ela diferente das tradicionais gueixas, que eram literalmente artistas, ou simplesmente dançarinas. <br><br>A legítima maiko era construída a partir dos "kanji" (dançarina) e "ko" que significa criança. Porém, Mikiko (Tereza) era diferente, era ela uma modelo Orian, que muitas vezes se confunde com as gueixas tradicionais. Ela sentou-se no chão na beira de um tapete com desenho de flores de cerejeiras. Em Quioto, ela fazia parte do "karyukai", a bela flor do Salgueiro, muito graciosa, flexível e forte. Como as gueixas tradicionais, ela também usava penteado complicado e a maquiagem era branca com riscos fortes nas sobrancelhas curvadas. Para distinguir uma da outra era que Mikiko a Orian fechava o seu obi (quimono) na frente, enquanto a gueixa tradicional o faz nas costas na maneira habitual. <br><br>Naquela época, eu tinha conhecido a bela e culta Mikiko, mas que, infelizmente, durou pouco tempo a nossa relação, pois foi breve a sensação de um tempo bom vivido a partir do alento de encher as minhas noites de sábado no bairro da Liberdade. Agora, já passados cinquenta anos, não mais penso nela. Mikiko era uma mocinha, uma menina ainda quando a conheci. Olhando-a bem, convenci-me de que apesar da sua estatura média não ia além dos vinte anos de idade. Tinha feições alegre, os olhinhos orientais cheios de vivacidade e a silhueta perfilada atrás do quimono enfeitado com desenhos de dragões escondia aos meus olhos todo o encanto atraente e fascinante de suas curvas sedutoras. <br><br>Sentamo-nos juntos no chão e o seu joelho tocou no meu, porém, muitos mais do que esse contato confortava-me o olhar que de tempos em tempos me procurava e me envolvia. Depois de uma música suave, compreendi que era hora de relaxar e dançar. A cabeça andava-me às voltas com a preocupação de não tropeçar no quimono enquanto os meus pés descalços deslizavam pelo chão que devia ter sido encerado recentemente. Quando a música findou, resolvi não tornar a dançar, felicitando-me por não ter dado, no meu primeiro intento de dançar, mais do que leves tropeções. Fiquei a observá-la até que a vi passar a um dos aposentos contíguos, no qual estava colocado em uma mesinha de laca preta com desenhos dourados nos pés e espalhados sobre ela alguns pratos da culinária japonesa que eu, até então, não conhecia; a fim de chamar a atenção dela exclamei: <br><br>- Meu copo está vazio, Mikiko! – disse. <br>- O meu também! – respondeu-me em um tom áspero. Havia, porém, um copo cheio junto dela. Acho que era de outra moça que frequentava aquela mesma sala de reuniões. <br>- Esse não é o seu? – perguntei. <br>- Não. Não sei de quem é. – respondeu-me.<br><br>A arrumação da mesa era individual, a hakozen, baseada no ichijú-sansai, composto de cinco bacias de arroz colocada à esquerda da mesa e a sopa à direita. Atrás, ficavam três pratos planos que seguravam os três acompanhamentos e no centro se servia vegetais cozidos. Mikiko colocou o hashi (pauzinhos) na frente da bandeja onde eu estava sentado. Antes de comer, ela tinha por costume dizer "itadakimasu" que queria dizer "eu humildemente recebo, antes de começar a comer a refeição” e "gochisôsama deshita", "Foi um banquete, ao anfitrião depois da refeição e aos funcionários do restaurante na hora de ir embora". <br><br>Mikiko estava sentada ao meu lado e recebeu uma toalha quente, uma espécie de um lenço molhado em pacote conhecido por "oshibori" que era usado para limpar as mãos antes de comer. O arroz colocado no "chawan", eu segurando uma tigela japonesa com a mão esquerda e com a mão direita os hashis (pauzinhos). A mesa era deveras convidativa. Normalmente, o shoyu (molho de soja) era colocado na maior parte dos pratos da mesa; um pratinho para shoyu era fornecido para o molho de soja, onde era colocado o tofu e nos pratos de nabo ralado (daikon), além de ser derramados no ovo cru quando já são colocados o "tamago kake gohan" (ovo no arroz). <br><br>Tinha eu muita dificuldade de segurar os pauzinhos que deviam ser fincados verticalmente no arroz, pois eles lembravam palitos de incenso. Mikiko tinha me advertido que era costume comer o arroz até o último grão. Sobre a mesa havia também o "kanpai" um brinde que sempre começava antes das refeições e eu deveria segurar o copo com as duas mãos para agradecer a gentileza de ser servido por ela. Havia também o delicioso karaage que eram "frituras de carne" ao estilo japonês, geralmente de carne de galinha condimentada com molho de soja. Eram pequenos pedaços de carne previamente marinados em molho de soja, alho e gengibre e, posteriormente, fritos em bastante óleo e acompanhados por um gomo de limão ou maionese.<br><br>Mikiko tinha se ausentado um pouco da mesa. Já sozinho, estendo-me próximo ao fogão e fico a olhar abstratamente as chamas azuladas do gás; cai sobre o fogo uma casca qualquer de alguma coisa, estalam as bandas de uma folha seca e meus olhos vão-se pouco a pouco se cerrando. Ao fim de uma hora, no embalo das misteriosas mãos de minha Orian, cede como se meus sentidos lograssem adquirir o ritmo do imenso silêncio. Da janela entreaberta da sala pude ver a lua no céu que mais parecia com um pequeno queijo que sugerem imagens de amor e me faz enrubescer, ao falar-lhe em voz baixa e arquear os braços no desejo de uma carícia de Mikiko. <br><br>Que aconteceu? Olho em volta do aposento e nada vejo de estranho; mas uma brisa morna vinda de uma janela me traz o apelo de uma voz que faz vergar minha alma, tremer todos os meus nervos e ofegar meu peito como se sentisse o outro peito de Mikiko a suspirar. Naquele momento senti que Buda me olhava severamente. É só um minuto apenas. A minha volta tenho a impressão de ver um fantasma sumir-se no labirinto da sala. Por um segundo luto contra a hipertensão dos meus sentidos e esgotado pelas emoções entro, enfim, no repouso absoluto nos braços da bela flor do Salgueiro a minha linda e suave Orian.<br><br><br>E-mail: [email protected]