Reuniões na Galeria Olido

Quando se formou aquele grupo do qual já falei, da galeria Olido, e que começou comigo parando na charutaria do Nivaldo bem na porta da galeria, pela avenida São João, foi aparecendo outros que vagando pela cidade paravam ali, para comprar um cigarro ou um chicletes, e por ali colocava o papo em dia. A turma foi aumentando e ficou completa quando surgiu a dupla do bixiga, Baixinho e Cabeleira. Quando a turma estava bem ajustada e já eram rotina nossos encontros, a coisa ficou engraçada por causa do Cabeleira. Era um cara alto e estava sempre de terno e gravata. Bigode espesso, cabelo Jaquetão abotoado, que foi algo de pilheria por parte de uma prostituta que fazia ponto na Rua Don José de Barros na entrada da galeria que dava acesso na rua 24 de maio. Uma delas soltou a frase.

– Não parece um biscatão o grandão?

A outra prostituta que estava no papetasso, foi mais longe:

– Parece mais um Mafioso da Ciccilia, baixa Itália!

A gargalhada foi geral tanto do grupo de mariposas quando dos vagais da noite quase perdida.

A partir daí o papo passou a ser diário com aquelas alegres mulheres da vida amorosa. Muitas piadas. Contos inimagináveis, e até coisas emocionantes, demagógicas.

Muitas mentiras também, sempre para enaltecer a si próprio ou fazer crescer o ego. A verdade é que estávamos sempre no centro da cidade e sempre esperando o Nivaldo fechar a charutaria às 22 horas para começar a andança à procura de tudo e muitas vezes alcançando o nada. Cada qual queria se arrumar, mas o que mais tinha por ali eram uns tremendos bofes.

Cabeleira estava bastante atrasado. Até padre ele estava encarando.
– Usou saia, tô na área, dizia. Quem passava sempre por nós naquele habitual footing era uma mulher alta, feia pra burro, cabelos avermelhados, curtinhos a lá garçone.

Começou a se engraçar com Cabeleira. E ele por não ter conseguido nada até aquele dia foi com tudo pra cima da mulher com focinho de Buldogue. Cabeleira trocou mensagens por algum tempo. E depois queria dar um tempo. Mas quem não dava tempo e nem trégua era ela, que apelidamos de russa, dado ao jeitão assim tipo meio sapatão, como se dizia.

Foi um custo para o Cabeleira sair fora dela. Foi preciso ele ficar um tempo sem ir lá, nós dizermos a ela que a mulher dele estava no encalço dele e de quem com ele estivesse. Aí ela sossegou.

As nossas conversas estavam ficando rotineiras e todos os dias estávamos com aquele grupo de prostitutas batendo um papo legal.

Foi assim que nasceu uma grande amizade entre eu e Vera. 36 anos de idade, já cansada do metier, dizendo que ia pendurar as “chuteiras” por já estar com o pé de meia formado. Já não dava expediente como antes.

Fazia aulas na escola de cabeleireiros na avenida Ipiranga, 1248. Bem no comecinho. Que na verdade, pela numeração, era o fim da avenida.

Numa sexta feira Vera deu a entender que aquele dia faria forfait (na linguagem turfística faltaria), então combinamos bater um papo em seu apartamento que ficava no prédio do cine Regina, avenida São João. Vera era 11 anos mais velha do que eu, mas tinha um rostinho de menina e um corpo de fazer inveja a muita mulher famosa da época.

Ficamos em seu Ap. ouvindo discos de boleros o que mais se tocava na época, na sua vitrola Hi-Fi, com rádio tudo Stereo, coisa para poucos. Ficamos por muitas horas. Era já meia noite quando me dei conta que estava na hora de pegar o Buso da meia noite e meia para não depender do navio negreiro(ônibus que recolhia motoristas e cobradores). Um beijo na testa foi a despedida simplória em Vera. Ela me pegou pelo braço, e foi dizendo: Amei você, sabe?

Fiquei meio sem jeito. E ela sem deixar a peteca cair disse: Pela primeira vez recebi alguém aqui que me tratou como gente, porque até então não passei por um objeto na companhia de um homem.

E aí a amizade foi ficando cada vez mais forte. Toda sexta feira era dia de visita no prédio do cine Regina. Agora tudo acontecia de normal, sem aquela formalidade de cliente e servidora.

Numa daquelas gloriosas sextas feiras em que o calor era sufocante fomos dar uma volta pela avenida São João tomar um sorvete e um ventinho que vinha lá da alameda Glete ou rua Apa.

Quando estávamos na praça Julio Mesquita, ouvimos um tremendo sururu. Gente olhando pra cima. Discos 78 rotações voando pela janela. Perguntamos a uma pessoa disse tratar-se de briga de marido e mulher.

Os gritos dele eram bastante audíveis: Vagabunda, sem vergonha. Um disco caiu bem nos meus pés. Era um disco Odeon, de Pedro Vargas, um daqueles boleraços que só ele sabia interpretar.

De repente vinha o queixoso aos berros sendo seguro pelos guanapas da força pública. Era nada mais nada menos que o jogador de futebol que tinha sido do São Paulo e do Palmeiras, Ponce de Leon, com aquele cabelo avermelhado repartido ao meio, xingando sua amada pega em Flagrante manuseando a alavanca de cambio de um negrão.

Ponce de Leon estava jogando futebol, lá pela Colômbia, sei lá. De vez em quando vinha a São Paulo acertar as contas com seus compromissos, e aquele dia inesperadamente teve que acertar as contas com a mulher e com a polícia.

Minha amizade com Vera foi até próximo a meu casamento em maio de 1969. Daí para frente cada qual tomou seu rumo.

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