Memórias de um taxista

Noite trágica do dia de Natal de 1960.
 
Para nós taxistas, o fim de ano com as festas natalinas e a passagem do ano eram bem estressantes. E quem se dispunha a trabalhar, poderia fazê-lo ao extremo, porque naquela década de 1950 o povo, de maneira geral, usava o táxi. 
 
Durante o ano inteiro era artigo de luxo, ou de emergência, como ir a um enterro ou um casamento. Nessa época de festas natalinas e ano novo todo mundo se locomovia usando o táxi como transporte, mesmo porque a indústria brasileira ainda não tinha deslanchado e pouca gente tinha o poder aquisitivo de ser proprietário de um automóvel.
 
Para mim e meu pai essas épocas eram a que trabalhávamos a exaustão.
 
Nesse ano de 1960, o Natal para mim foi muito triste. Tinha perdido meu pai que faleceu de enfarto fulminante no dia 24 de Novembro e foi sepultado no dia 25, exatamente um mês depois do dia de Natal. 
 
Naquele Natal levantei cedo e trabalhei ate à 13h, pois fomos almoçar na casa de um amigo da família. Era o primeiro Natal sem meu velho na cabeceira da mesa, comandando nosso almoço Natalino. Lembro que aquele dia choveu muito. Assim também como na véspera. E ouve enchentes na cidade de São Paulo. 
 
Nós almoçamos na casa do Abelardo, meu grande amigo que morava na Rua da Alfândega. Pelas quatro horas da tarde já estávamos em casa, e não planejávamos mais sair pelo resto do dia. O meu filho mais velho tinha pouco mais de um ano e a Lourdes, minha esposa, esperava o segundo filho para fevereiro. Enquanto isso, eu paparicava meu garoto em casa. 
 
Foi quando Luciano, amigo de infância, tinha convidado a noiva para almoçar na casa dos pais dele. E como chovia, ele me pediu se eu podia levá-la para casa. Ele só iria deixar a Ivete em sua casa no Ipiranga, e voltaria comigo. Isso evitaria que eu me envolve-se com outros passageiros pelas ruas de São Paulo. Eram mais ou menos 17h30.
 
Sai em direção ao Bairro do Ipiranga, nas imediações da Cipriano Barata, onde ela morava. Quando atingimos a Avenida do Estado, na altura da Rua Ana Nery, onde atravessamos a ponte para pegar o lado oposto da avenida dividida pelo Rio Tamanduatei, percebi que o rio estava quase transbordando. 
 
Ao chegar perto da “curva do S”, que dava caminho para quem quisesse ir para a Vila Prudente, notamos que havia acontecido algum acidente ao lado da ponte do rio. Não demos muita importância… E assim, chegamos ao Ipiranga e esperei pelo Luciano, que logo retornou. 
 
Já na volta, outra vez pela Avenida D. Pedro, chegamos à “curva do S” e notamos que realmente algo grave tinha acontecido. A Guarda Civil de São Paulo, que na época comandava o policiamento, tinha dois fuscas estacionados ao lado do rio e um carro do Corpo de Bombeiros fazia trabalhos de busca. 
 
Pelo que diziam os presentes, uma Ramona (uma Chevrolet dos anos 30) havia perdido a direção e se precipitou naquele rio barrento e quase transbordando. Eram o Pai e três filhos…
 
Naquele momento, estacionamos e fomos olhar mais de perto. Perguntei ao Guarda Civil de um dos fuscas e ele, com os olhos cheios de lágrimas, acendeu a luz interna do carro e presenciei a cena mais dantesca de toda a minha vida: uma menina de 2 anos, um menino de 3 e outro de 6, que tinham acabado de ser retirados do rio pelos bombeiros. 
 
As crianças estavam sentadinhas, duas no banco de trás e uma no banco da frente, com os olhos aberto ainda cheios de água. A primeira coisa que pensei foi nos meus filhos João e no Gilberto, que estava por nascer.
 
Chorei copiosamente por aqueles anjos como se fossem meus filhos. Essa cena nunca mais se apagou da minha mente, eu realmente fiquei traumatizado. 
 
O pai das crianças logo foi retirado também. Era uma família portuguesa. O nome dele era Antonio Santos Pereira, e era dono de uma padaria no bairro do Ipiranga. Depois de almoçar com a família, que moravam na Avenida Canindé, pertinho onde hoje é o Campo da Portuguesa, resolveu levar as crianças a um passeio. 
 
Antes, foi até a padaria para ver como tinham sido os negócios naquele dia. E na volta, talvez com alguns copos de vinho, coisa muito normal para a época natalina, especialmente para um cidadão português acostumado a esse tipo de comemoração num almoço de festas; talvez também por alguma falha mecânica num carro antigo… morreu com seus entes queridos. 
 
Da família só sobrou a esposa, que cheguei a conhecer depois. Acompanhei o enterro que foi realizado no cemitério do Brás da Quarta Parada. 
 
Já faz cinquenta e quatro anos desse nefasto acontecimento, mas sempre que vou a São Paulo, visito o Jazigo da Família Santos Pereira onde estão a “Teresinha, nascida 15-8-1958”, “Ricardo, nascido 12-2-1957”, “Bertinho, nascido 18-6-1954” e junto com eles o Sr. Antonio Santos Pereira, que tinha pouco mais de 40 anos. Todos falecidos no dia 25-12-1960. 
 
Que Deus lhes de muita paz e muita luz, amém!