O varal da minha infância

Embora morássemos numa casa pequena e modesta, tínhamos o privilégio de desfrutar de mais dois lotes baldios que faziam divisas com a nossa propriedade. Tornara-se hábito usufruir daquele extenso espaço como se fosse o nosso quintal.
 
Aproveitávamos para ali fazer a nossa praça de futebol. Apesar de o solo ser um tanto íngreme, percebia-se que tinha um arremedo de campo pelo simples fato de ter as áreas de jogo demarcadas e duas traves de madeira em lados opostos. Naquele campinho sempre que houvesse folga da escola travavam-se empolgantes porfias.
 
Porém, nem sempre era conveniente disputar uma partida naquele terreno já que mamãe, juntamente com vovó, decidiu também se apossar do local, montando ali dois varais para colocar as roupas lavadas para secar.
 
Os tais varais eram confeccionados por grossos fios de metal flexível, suas pontas presas às traves, na verdade os nossos gols. O centro de cada um dos arames era sustentado por varas de bambu que, uma vez erguidas, impediam que as roupas colocadas se arrastassem pelo chão de terra batida.
 
Nas manhãs de sol escaldante era comum estenderem lençóis que, de tão alvos, refletiam o brilho por toda parte. Lembro-me ainda das peças de roupas coloridas expostas lado a lado formando um imenso painel. Foi justamente num dessas manhãs que vovó, percebendo que eu carregava uma bola, dirigiu-se a mim e recomendou:
 
– Moleque, num vai chutar bola agora não. Passei toda a tarde de ontem e a manhã de hoje lavando as roupas. Eu acabei de colocar tudo no varal pra quarar.
 
Respondi dissimuladamente:
 
– Pode deixar vovó, eu tomo cuidado!
 
Menino desatinado que era não respeitei as ordens. A princípio só e sem muita empolgação comecei a rolar a bola pra lá, driblando cada uma das sombras das peças estendidas, sem maiores implicações. A coisa estava muito monótona até chegar um amigo que também se pôs a tocar a bola.
 
Um chutinho aqui, outro ali, íamos nos distraindo, já não mais se importando com as recomendações da simpática velhinha.
 
De repente, um petardo do colega e o objeto esférico vai de encontro às varas de bambu que davam sustentação aos imensos varais.
 
Calças, camisas, camisetas, anáguas, combinações, cuecas e calçolas se espalharam pelo chão. Percebi que entre todas aquelas peças, na verdade eu que me encontrava em maus lençóis, envolvido em uma situação embaraçosa e pra lá de grave. Não pensei duas vezes: de imediato fui até a casinha do Dique e o soltei das correntes, empurrando-o em direção ao campinho.
 
Aos gritos apontava para as roupas caídas sempre repetindo:
 
– O Dique escapou! Derrubou o varal! O Dique escapou! Derrubou o varal!