Nos conturbados dias dos anos 1960, quando se instalou o movimento militar que assumiu o poder dava medo até em andar pelas ruas da cidade. Eu que era aquele andarilho já comentado em outros textos, tinha dias que retornava para casa as pressas devido às turbulências dos acontecimentos com correrias e viaturas policiais correndo para todo canto da cidade, notadamente no centro.
Era uma barulheira de sirenes de todo tipo. Umas parecidas com a do corpo de bombeiros e outras da própria polícia. Um dia a coisa estava tão nebulosa, e literalmente, pois era uma fumaceira de bombas de gás lacrimogêneo, que além daquela nuvem branca onde não se via nada tinha o forte cheiro e a gente ficava com olhos vermelhos e lacrimejantes.
Tudo isso começou no ano de 1967, logo depois de Castelo Branco sair e dar lugar a Arthur da Costa e Silva. O ano de 1967 estava chegando ao fim e as reivindicações salariais começavam a pipocar devido o final das datas bases de muitas categorias. Novembro coincidia o término das datas bases dos Marceneiros (minha categoria) e dos metalúrgicos.
O governo através do ministro do trabalho, Jarbas Passarinho, decidiu que os aumentos seriam na base da inflação, que segundo eles era de 30% (só por que eles queriam). Nós fomos dentro desse patamar porque a comissão de salário da qual eu fazia parte achava que mandava quem podia e obedecia quem tinha juízo. Já os metalúrgicos queriam 64% de aumento, e estavam radicalizando esse pedido. O sindicato dos metalúrgicos de São Paulo era a referência para aumentos salariais. Todas as outras categorias iam sempre na dos metalúrgicos, e o governo sabia disto. Então eles eram os mais vigiados e estavam sempre no olho do furacão. Outra determinação do governo era de quem desobedecesse àquela determinação seria castigado com um aumento de 21,75%.
Nós do sindicato dos marceneiros estávamos na mesa de negociação do TRT
(Tribunal Regional do Trabalho) na Rua Martins Fontes, mas como sempre havia uma brecha, e a que o governo dava era de que, havendo uma negociação além do estipulado, ele homologaria desde que as empresas não repassassem nas mercadorias.
Estávamos dentro deste patamar. Depois de três reuniões conseguimos um acordo de 32%, um “aumentão” diante do período severo de autoritarismo.
Mas precisávamos do sim da assembléia dos trabalhadores. E nessas reuniões era sempre aquele grupesco de velhos presentes em todas as reuniões e que perturbavam sempre com exigências descabidas.
Como a briga era mais política que qualquer outra coisa, a proposta feita pelo sindicato dos trabalhadores, aceita pelo sindicato patronal, foi aprovada por pequena margem de votos, coisa manjada para não dar muita força a situação favorita nas eleições marcadas para maio do ano seguinte. Coisas da politicagem. Mas tivemos que discutir muito com a categoria que queria exigir um aumento maior.
Eu ainda um jovem de 26 anos e diante de pessoas bem mais velhas tive que gritar até de uma forma deseducada, e dizer com todas as letras que, enquanto nos estávamos numa luta titânica com o sindicato patronal eles eram velhos rabugentos que só sabiam chegar bem cedo e ficar esperando sentados o que tínhamos resolvido na mesa de negociação. E disse mais:
– Ou aceitamos os 32% que está acima do que o governo oferece ou vamos ficar com o castigo de 21.75% já decidido pelo governo. Vocês escolhem. Antes da votação houve uma tremenda troca de insultos e naquele tempo eu falava palavrões em demasia, cheguei a exagerar. Foi quando o presidente do sindicato Antonio di Chiachio, cochichou no meu ouvido que tinha federal no pedaço, que era para eu maneirar.
Enfim por uma margem não muito grande o acordo foi aprovado, portanto homologado.
Naquele mesmo dia estava para se iniciar a reunião final do sindicato dos metalúrgicos na sua sede a rua do Carmo. Para representar o sindicato dos marceneiros eu e o companheiro Joel fomos nomeados pelo nosso presidente.
Lá chegando vimos um ar bastante carregado com muita confusão na rua do Carmo, sendo que dentro do prédio o auditório e por extensão o refeitório estavam repletos de sindicalistas gritando palavras de ordem.
Joaquinzão, filho disto, filho daquela, pelego, traidor da categoria e outras palavras mais pesadas. Joaquinzão tinha sido nomeado pelo governo militar. Era, portanto, chamado de presidente “biônico”.
Quando a reunião começou cada orador tinha sua voz sufocada pelo barulho ensurdecedor da platéia. Sendo que quando as ofensas foram mais pesadas a pancadaria se generalizou, foi paulada, cadeirada, bolinhas de gude jogadas para tudo quanto foi lado. Cadeiras voando para cima do palco. Nunca senti tanto medo na vida como aquele dia que, escondido atrás da cortina do palco, vi uma cadeira passar bem perto da minha cabeça.
Diante de todo aquele quebra quebra, a reunião foi encerrada sem uma definição. Conclusão 21,75% foi o reajuste para os metalúrgicos. Pela primeira vez no sindicalismo paulista um sindicato tinha superado os metalúrgicos, até então referência para todas as categorias. E coube ao sindicato dos Marceneiros essa tarefa.
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