Três Verdades

Tenho seis filhos. Para os padrões de hoje são muitos. Um deles, Tiago, que mora no início da Av. Guapira,  no Tucuruvi, é um sujeito muito festeiro. Para ele, não é necessário ter um motivo para fazer uma festa. Qualquer motivo é bom, mesmo que seja só para reunir parentes e amigos. 
 
Foi numa destas festas sem motivo algum, que aconteceu o que passo a narrar.
 
Na festa, havia um rapagão, conhecido dos meus filhos e da minha nora, que estava ali porque andava gabiruzando a Janaina, irmã mais nova da minha nora.
 
Esse moço tem uns 23 anos. Menino bonitão, de porte atlético, todo empolgado.
 
Muito bem, certa altura da festa, minha nora resolveu pedir à minha mulher que fizesse uma torta de palmito, que, modéstia a parte, só mesmo a Dona Isabel, minha amada, sabe fazer. 
 
E ela, como gosta de cozinhar, logo se prontificou a fazer, mesmo com a festa em andamento. Postos os ingredientes da dita torta, chegou a hora fatal de abrir o vidro dos palmitos.
 
Não sei se vocês já perceberam, mas o maldito do vidro de palmito parece que é fechado para toda a eternidade. Nunca vi nenhum deles abrir com facilidade, mas eu sempre os venci. Alguns com mais outros com menos esforço. Mas sempre sai vencedor.
 
Vinham as duas, minha mulher e minha nora, trazer o vidro para que eu abrisse. Tomei-o pelas mãos, displicentemente pus a mão direita sobre a tampa e argh… nada. A bendita nem se mexeu, forcei novamente, agora com mais energia. Nada. Absolutamente nada. Arfei o peito, pus toda força na mão e … agora vai. Que foi nada. A maldita tampa ficava ali, impassível.
 
Foi então que o tal do rapagão que, de longe observava tudo, interferiu:
 
– Posso tentar, seu Marcos?
 
Minha netinha, filha do Tiago, que tem 7 anos e também observava minha luta contra a tampa, ao ouvir o “possível futuro tio” pedir para tentar abrir o vidro retrucou:
 
– Imagina que você vai conseguir abrir o vidro. Se meu vovô que é grande e forte não conseguiu, você acha que vai conseguir?
 
Naquele momento me gelou a alma e mesmo sentido um frio na espinha e rogando a todos os deuses que ele não conseguisse abrir o maldito, entreguei o vidro ao garotão. Naquela hora eu aceitava tudo, não comer a torta, ter um calo no dedinho do pé, ter dor de dente, de ouvido, até entregar os títulos da Libertadores e o Mundial do meu Timão, para que ele não abrisse o vidro.
 
O menino fez pose, encheu o peito botou a mão sobre a tampa do vidro e meteu bronca. Não foi sem algum esforço mas, de repente a tampa fez ploft e girou. Nesta hora imediatamente meus olhos procuraram os olhos da minha netinha e o que eu vi quase me põe em prantos. Os olhinhos dela mostravam toda decepção que sua curta vidinha podia lhe trazer. Passado o momento, eu a peguei no colo e fui com ela até a varanda da casa, lá chegando, sentei-a no meu colo e disse:
 
– Bia, você acha mesmo que o vovô não conseguiria abrir aquele vidro? Claro que o vovô conseguiria, o vovô só não abriu para deixar que o rapaz lá abrisse, porque ele está querendo fazer bonito para namorar sua tia Janaina. Foi por isso que o vovô não abriu o vidro.
 
– Ah… vovô, então você não abriu para ele aparecer para minha tia Jana?
 
– Isso filha, foi por isso mesmo.
 
Pronto. Os olhinhos dela brilharam novamente e tudo voltou ao normal.
 
Claro que eu não me senti bem de ter feito isso, mas este episódio me trouxe três verdade:
 
1) O tempo é inexorável, ele passa e sempre virá o dia em que suas mãos já não serão mais tão fortes, e outras mãos fortes virão para nos substituir.
 
2) Mentir é feio e errado, mas às vezes, a gente faz sim, ainda que seja só para proteger a quem se ama.
 
3) A única coisa no mundo que você é capaz de amar tanto quanto você ama um filho são seus netos. Por eles a gente também faz de tudo, até mentir depois de velho (Coisa feia! Faça isso não, viu netinha. Pelo menos até você ter netos também).