Era office boy, trabalhava na Ultragaz (na Brigadeiro Luis Antônio, na Bela Vista), e morava no Mandaqui. Já estava atrasado e sai correndo.
Peguei o expresso tartaruga (o trólebus antigo 105 Mandaqui – São Bento). Depois peguei o 922 (Bairro do Limão – Jardim Paulista), subi até o 9º andar para bater o cartão e já levei uma bronca.
Trabalhei que nem gente grande aquele dia. 17h30 – final de expediente e a surpresa: as nove secretárias de diretoria com quem eu trabalhava, vieram me parabenizar por ter a coragem de lançar a moda.
O dia inteiro trabalhando com um sapato azul escuro e outro vinho. Com 17 anos, aquilo era uma tragédia. Fiquei imaginando quantas pessoas riram de mim, falaram, fizeram piadas, etc.
Mas pensei, agora é tarde e Inês é morta… “Vamô que vamô!”
E lá fui eu…
Peguei o 922 e desci a Brigadeiro. Passamos pela Sé e entramos na Boa Vista, já sabendo que aquele trecho até o largo São Bento levaria pelo menos 20 minutos e não tinha choro nem vela.
Porém, a danada da rua Boa Vista naquele dia estava totalmente livre. O cachorrão do motorista se empolgou e achou que estava em Interlagos… Chegou no largo São Bento em segundos. Freou bruscamente, tava tudo embolado e todo mundo foi pro chão… cáspita!
Mas tudo bem, enfim ia pegar o 105 mais vazio. Entrei no trólebus e fui passar a roleta. Me ferrei de novo… a moeda de 0,50 (preço da passagem), não estava no bolso. Até hoje eu acho que caiu no outro ônibus.
Olhei pra um lado e outro e nada de ver alguém conhecido para me ajudar a não passar por aquela humilhação.
Ninguém apareceu afinal! Eu estava com o ônibus "adiantado", porque não houve congestionamento na Boa Vista e a turma que ia sempre comigo, provavelmente, ia tomar o próximo ônibus.
Não tinha saída e tive que contar pro simpaticíssimo cobrador desconhecido.
Ele muito generosamente gritou aos quatro ventos que tinha que falar com o fiscal no ponto final, lá no Mandaqui.
Acontece que eu morava no Alto de Santana. Fui até o fim, falei com o fiscal, contei o acontecido e ainda culpei a cmtc pela direção do motorista do outro ônibus.
O cobrador defendeu o colega da outra linha, esperneou, gritou, mas não teve jeito. O fiscal foi com a minha cara e mandou entrar pela frente, voltar imediatamente e descer onde quisesse.
Claro que antes ele ficou olhando para meus pés. Acho que me tirou por doido.
Legal foi a cara do cobrador, pois eu voltei no mesmo ônibus, de graça e desci onde quis. O motorista ainda pediu desculpas pela falta de educação do bisonho.
Nestas palavras, rs.
E eu nem lembrava mais dos sapatos diferentes.