O futebol no Cangaíba

Quando garoto nos anos 60, e adolescente nos anos 70, com dinheiro curtíssimo, a única diversão possível era jogar bola. No Cangaíba, espaço para isso era o que não faltava.
 
Na Avenida Cangaíba, esquina com Rua Antônio de Arzão, onde hoje estão construídos dezenas de sobrados germinados, havia um campo. Não me recordo a qual time pertencia, o importante é que ele existia e ficava a disposição dos garotos que, como eu, passavam tardes inteiras jogando futebol. A bola era emprestada pelo time. Ela ficava num bar, debaixo da mesa de sinuca e era de capotão. Quando estava molhada pesava mais ou menos cinqüenta quilos. Como era costurada, sempre havia um gomo rasgado, o que deixava a câmara de ar totalmente vulnerável. Toda vez alguém chutava de bico, acertava em cheio a câmara e estourava nosso brinquedo.
 
Um dia resolvemos fazer uniformes para jogar contra a turma da rua de baixo. Dinheiro não havia. A solução foi conseguir vários sacos de farinha de trigo, junto ao armazém do bairro (na época chamávamos de “venda” e não armazém) e cada mãe fazia a camisa para o seu filho craque. A minha e a de meu irmão eram as mais bem feitas, pois minha saudosa mãe era costureira.
 
Quando os sobrados começaram a ser construídos e tomaram nossa área de lazer migramos para a rua, mais precisamente para a Rua Arnaldo de Moraes. Dois tijolos de cada lado da rua e estava montado nosso campo em pleno asfalto. Quando vinha algum carro alguém sempre avisava, “Olha o carro”, e a partida era interrompida até o carro passar.
 
A bola não era mais de capotão, mas de plástico. Qualquer modelo ou tamanho servia. Não éramos exigentes. Nessa rua morava um senhor, sempre mal humorado, o Sr. Aristides.
 
Toda vez que a bola caía em seu quintal ele furava, rasgava ou simplesmente não devolvia. Ficou com tantas bolas que poderia abrir uma loja.
 
Nossa vingança contra ele era comprar bombinhas, fazer um furo dentro de batatas que pegávamos na “venda”, colocar as bombinhas dentro das batatas e jogar em seu quintal. E correr pra casa. No outro dia estávamos lá novamente.
 
Onde hoje existe o Parque Ecológico do Tietê, havia o campo do Marítimo, o do “Corinthinha”, o do Bangu e o do Piratininga, mais conhecido como Pira. Por coincidência, o Centro de Treinamento do Corinthians, fica perto de onde antes ficava o “Corinthinha”, só que do outro lado da linha férrea. Antes de chegar ao parque havia o campo do Janiópolis e era lá que costumávamos brincar nas tardes de domingo, já no início da adolescência. A caminhada até o campo era grande mas a volta compensava. Alguns colegas já trabalhavam e pagavam uma rodada de tubaína e laranjada em algum bar do caminho.
 
Na Rua Londrina, onde hoje existe um edifício residencial, havia o campo do Cruzeirinho, e era conhecido como “Beira Barranco”.
 
Era lá que tínhamos as aulas de educação física, no ginásio estadual Nelo Lorenzon, hoje Caetano Mieli. A particularidade desse campo, além de ficar num grande buraco rodeado de barrancos, era que atrás de uma das traves, onde o buraco era ainda maior, havia uma mina onde bebíamos água depois das aulas ou dos jogos. Anos atrás, na última vez que estive no Cangaíba, dei a volta pela rua atrás do prédio e fiquei surpreso ao ver que o buraco onde fica a mina ainda está lá. Senti-me adolescente novamente. Lá por perto tinha também, o campo do Tricolor do Bairro, que ficou invicto por vários domingos no famoso ”Desafio ao Galo” na TV Record.
 
Hoje no Cangaíba restou apenas o campo do C.A. Jaú, na Avenida Tiquatira, talvez o mais antigo de todos eles.
 
De tanto jogar bola na rua e nos campos de várzea, eu cismei que era craque e fui tentar a sorte no Corinthians por duas vezes. O responsável pela peneira era o Cabeção, goleiro dos anos 50. Reprovou-me e o Corinthians perdeu aquele que poderia ter sido o maior craque de sua história.