Indescritível o sentimento. Uma energia latejante ecoava pelo coração daquele tempo de juventude. Que imensa a realização ao entrar na universidade logo no primeiro vestibular! Para quem tinha a autoestima mergulhada no mais baixo padrão da existência, terminar o antigo colegial e entrar no curso superior era marcar entrada triunfal no mundo adulto. Sim, um mundo com mais conhecimento, participação, responsabilidade, deveres de pessoa dona da palavra e do curso da própria história. Seria ter voz ativa, mudar alguma coisa. Sonhar muito, sonhar alto e transformar o mundo.
Quantos de nós sonhávamos em mudar o mundo! Felizmente juventude tem disso – ou tinha. Então, era preciso agir e rápido. Jovem tem pressa sempre e não sabe e nem quer aprender a desacelerar. Os passos têm que ser largos e com decisão. E o inesperado, bem, arruma-se uma justificativa para ele.
Próximo passo: procurar trabalho. Onde? Falar o que? Como enfrentar uma entrevista? E com que roupa, com que roupa eu vou pro samba que você me convidou??? Com qual conhecimento, experiência, qualificação??? Que nada, logo percebi que terminar o colegial era apenas uma etapa da vida e que não conferia a ninguém qualquer tipo de capacitação.
Pior de tudo: tempos macabros de ditadura e recessão. Liberdade e trabalho, que seriam muito bons, neca. Nerusca! E o cinto apertava, as contas iam chegando. E a casa, a vida pedindo urgência.
Minha amiga Suely e eu resolvemos prestar um concurso. Coisa da prefeitura e não tenho mais nem uma vaga ideia do que era, qual seria o salário, etc e tal.
Realizamos a prova. O resultado foi a nossa aprovação. A felicidade em imaginar viver com autonomia, dona das próprias pernas, de participar do mundo adulto, com boas ideias, propostas inovadoras, tudo junto, fazia de nós as pessoas mais realizadas naquele remoto inverno de 1977. Puxa! Eu comecei a pensar com uma agilidade espantosa, no quanto a minha vida e da minha família haveriam de melhorar. No caso da Suely era diferente. Filha única, sem problemas aparentes na família, pai saudável, seria apenas uma conquista pessoal para, com mais liberdade, comprar os seus próprios pares de tamancos. E como ela fazia plec plec com os seus tamancos!
Chegou o dia da nossa apresentação àquele setor da prefeitura. Fomos juntas risonhas e prontas para assumir a tarefa.
Sem cerimônia, veio nos a tender um jovem funcionário, acomodou-se sobre a escrivaninha, apoiando a perna direita sobre a mesma e começou a explicar o que viria a ocorrer após a aprovação no dito concurso:
-Vocês têm que esperar dois anos para serem chamadas e…
– Quá quá quá quá quá.
Nós nos pusemos a rir compulsivamente, dobrávamos o corpo e até lacrimejávamos de rir… para não chorar diante da frustração e da vergonha, pois nós estávamos acreditando que, se fomos aprovadas, qual seria o problema em começarmos logo a trabalhar e a cuidar das nossas vidas?
Mas nós gargalhamos tanto, mas tanto, que o rapaz resolveu não falar mais nada, apenas sorriu e nem se mexeu de sobre a mesa.
Saímos de lá nos torcendo como parafusos de tanto gargalhar, entramos no metrô e não conseguíamos nos conter até chegar em casa.
Apenas um jeito infantil de tentar entrar no mundo da responsabilidade. Permanecemos desempregadas, mas logo consegui um estágio, onde tive a grata felicidade de conhecer o meu futuro marido.