Tuas margens ficaram trancadas num muro de cimento cinza.
Tu que guardas nossos segredos escondidos, no lixo que insiste em boiar em tua essência.
Tu que a tudo recebes e que por encanto leva embora.
Suporta a lida humana que te trata desumana.
Quando tu te cansas e dá um basta na enchente, de repente, lá vem mais concreto que te afoga.
Tuas águas cada vez mais negras, como a dizer que choras por nós.
Mesmo assim suportas, tens comportas, e sabes que mesmo assim muitos te amam.
Você é meu, e não sei, mas de quem. Pode ser de quem quiser.
Nem acredito quando te vejo.
Como puderam te deixar assim, meu querido rio Tietê?
Sou teu tiete.
Desculpo-me por não conseguir te dar a dignidade e o reconhecimento que mereces.
Te vejo e a alegria do reencontro se transforma em tristeza por tua situação.
Em alguns rompantes de loucura, dá vontade de me jogar em tuas águas e fazer estripulia, chamar a polícia, a política e toda torcida, mas acho que de nada adiantaria.
Apesar de todo o sentido, ainda peço que resistas.
Mantenha seus segredos em suas curvas, e a retidão em suas retas.
Cuide das poucas árvores a tua volta e dos corvos que te ajudam.
Muitos nem te olham de vergonha pelo que fazem.
Não ligam para o cheiro e nem para a tua cor.
Nem mesmo sei por que te digo, mas te adianto que tudo isto vai mudar.
O homem se comporta como um burro, mas no fundo sabe que precisa de você.
Ainda haverá o tempo em que suas águas ficaram tão limpas e puras como uma lágrima, e saiba serão as suas, as nossas, a de todos.
Te peço mais paciência ainda. Choro por ti ainda preso.
Tua calma me consola e sei que sabes que és eterno em meu coração.