Um Funeral Constrangedor

Nota publicada no “Jornal da Tarde” de 12/08/1997, respeitoso diário de São Paulo (já extinto), do grupo do "O Estado de São Paulo", o maior e mais prestigiado jornal do Brasil.
 
"Um Funeral Constrangedor"
 
Pais de rapaz que morreu em atentado em Jerusalém não conseguiam enterrar o filho em cemitério judeu.
 
Num estranho e doloroso post-scriptum para as explosões da semana passada no mercado de Jerusalém, os pais de Grigory Pesahovic, de 15 anos, uma das vítimas do atentado, ficaram desesperados num cemitério por não poderem encontrar um lugar para sepultar seu filho. “Dêem-me uma pá… eu mesmo o enterro, não importa onde for”, disse o pai do garoto, Yevgeny, de pé ao lado do caixão e confortando sua ex-mulher que chorava. O caso ocorreu na semana passada e foi contado com detalhes pelo jornal israelense Maariv.
 
Inicialmente impediu-se o sepultamento de “Grisha” em um cemitério judaico porque ele não foi considerado suficientemente judeu. Depois, a família recusou o cemitério greco-ortodoxo do Monte das Oliveiras, porque não queria que se recitassem orações cristãs sobre seu caixão. Após impasse de uma hora, os pais do rapaz e as pessoas que acompanhavam o enterro não tiveram escolha: desceram a colina e levaram o corpo de “Grisha” de volta ao carro fúnebre.
 
O corpo de “Grisha” teve que ficar na geladeira de um hospital durante o sábado judaico. Somente no domingo, com a intervenção de um ministro e depois de apelos especiais ao Ministério de Assuntos Religiosos, encontrou-se um lugar no cemitério municipal de Har Hamenuhot, numa área reservada a seita Bahai – que não exige funerais religiosos.
 
O constrangimento que cercou o sepultamento ressaltou os amplos efeitos de crenças religiosas inflexíveis em Jerusalém. “Foi um espetáculo absurdo, trágico”, disse Yuli Edelstein, ministro do governo para os imigrantes. Após tomar conhecimento das dificuldades da família, Edelstein fez apelos frenéticos, por seu telefone celular, para encontrar um cemitério que aceitasse sepultar o rapaz.
 
O problema foi que “Grisha” – que emigrou da Rússia para Israel com sua mãe, Olga, há dois anos – descendia de um casamento misto. Seu avô materno havia se casado com uma mulher não-judia na ex-União Soviética. Embora sua mãe e seu pai se consideram judeus, tenham sobrenome judaico e tenham vivido como judeus na Rússia, por força da lei judaica “Grisha” não era judeu e não poderia ser sepultado ao lado de outros judeus.
 
“Ele viveu como judeu na Terra de Israel. Meu filho não era cristão. Não estou disposta a deixar que o sepultem como cristão” disse sua mãe. Edelstein acha que esse episódio grotesco poderia ter sido evitado se a família tivesse feito um pedido para que o corpo fosse sepultado numa das áreas recentemente reservadas em 16 cemitérios de Israel para casos como este, em que não se pode comprovar que o morto é genuinamente judeu.”
 
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Essa nota propiciou uma carta que enviei ao jornal e foi publicado em 13/08/1997.
 
“Ao ler a reportagem ‘Um funeral constrangedor’ (Internacional, 6/8, pág.14) cheguei a conclusão de que o conflitos entre árabes e judeus não tem e nunca terão uma solução. A intolerância e o preconceito são combustíveis fáceis e abundantes para alimentar essa fornalha de ódio e vingança que tantas vidas tem ceifado. Como é possível se negar sepultura a um garoto de 15 anos (vítima dessa aberração que é o terrorismo auto destrutivo) pelo simples fato de seu avô materno ter se casado com uma “shoksa”? Que esdrúxula concepção de humanidade teria esse povo culto, que se diz vítima do “maior genocídio que a humanidade lhes impingiu”? Que desculpa teriam os que mantém abertas as chagas causadas pelo nefando e vergonhoso genocídio nazista, humilhando o pobre pai Grigory Pesahovic? “Ele não era suficientemente judeu”, foi alegado. Mas era um ser humano. Chega de fanatismo, de ignorância. Paz, pelo amor de Deus. Deus que é o mesmo dos judeus, dos árabes e de todos os que anseiam um dia viver nesta bendita terra cultivando somente o que Ele mais pregou: o amor.”
 
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No dia 26/8/1997, o mesmo jornal, publicou uma carta da Sra. Trudi Landau, conhecida nas altas rodas sociais de São Paulo.
 
“Respeito”
 
A carta “Intolerância”, (SP, 13/8) de Modesto Laruccia, sobre a discriminação de um morto em Israel, mais uma vez prova que a solução global envolvendo absurdos e atrocidades cometidas em nome de algum deus, somente seria uma: abolir todos os credos, seitas e associações que possam ser considerados religiosos, colocando em seu lugar a ética. Em vez da utopia do irrealizável lema “ame ao teu próximo como a ti mesmo”, deveria constar o verbo “respeitar”, pois para agir de modo adequado não é necessário o amor que não se consegue comandar, mas o reconhecimento dos direitos e deveres de cada um. Não pratico religião alguma e não acredito em um ser superior que se preocupe com cada ser humano, cada animal e cada folhinha de árvore, mas assim mesmo consegui fazer uma porção de coisas em prol dos meus concidadãos, por meu anseio de justiça, usando somente a certeza de que não há sentido intrínseco da vida (tão procurado por alguns). Nós todos temos de dar sentido a vida, a nossa e a dos outros, todos os dias. 
 
Trudi Landau.
 
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Isso tudo ocorre em São Paulo, pelo simples fato de ser nossa cidade onde, além da pujança incomensurável, existe a liberdade de imprensa, apesar de todas as tentativas de cercearem nosso maior bem: o amor pela paz e pelo trabalho.
 
Acho que já falei demais, né?