Uma camisa de flanela…

Hoje pela manhã, fui até a pequena chácara que tenho em Jaguariúna, São Paulo. Rotina de todos os dias: cuidar dos animais, alimentar os dois cachorros companheiros, algumas galinhas, e procurar o que fazer… o que sempre encontro.
 
O frio e a garoa eram cortantes, e a esposa zelosa, recomendou:
 
– Tem uma camisa de flanela no armário, use-a!
 
Cheguei ao meu cantinho. Acendi o fogão a lenha, que minha mãe muito usou, e ao ver o crepitar das chamas, o arquivo (às vezes falho) me levou a mais de meio século atrás…
 
Havíamos mudado para São Paulo: eu menino, o pai, os irmãos mais velhos, pedreiros, desafiando o desconhecido em 1948. Faz tempo, né?
 
E na garoa que encharcava as ruas da vila de terra, as pessoas passavam apressadas para "pegar" o bonde ou o ônibus para o trabalho – nas fábricas, lojas, construções.
 
São Paulo tinha um povo trabalhador, digno de respeito; fazendo aos sábados e domingos, em mutirão, suas pequenas casinhas, lá pros lados do longínquo Jabaquara, de Itaquera, e da Penha. Não esperando as benesses do governo, faziam acontecer!
 
E ao pegar a tal camisa de flanela, macia, quentinha, me pus a relembrar o quanto difícil era a digna vida que passávamos…
 
A mãe comprava, nas casas Pernambucanas, uns metros de tecido, de várias estampas diferentes, para atender os gostos dos filhos exigentes. E como ela tinha muito tempo disponível, cozinhava para a família, lavava a roupa do pessoal (sem água encanada, extraída de um poço), aproveitava para costurar nossas roupas. Ainda costurava para ganhar algum dinheiro, pois era uma privilegiada e tinha uma máquina de costura, coisa que as vizinhas não tinham.
 
E lá ia eu, amassando lama, andando da Vila Nair até a Rua Greenfeld… No Ponto Fábrica até o Grupo Escolar, aprender as primeiras letras, sílabas, orações, tabuadas, aquecido pela única blusa que tinha. Aguardava o recreio, para tomar a sopa de repolho, que sem nenhuma demagogia, era oferecida aos alunos…
 
Acho que aprendi a valorizar o pouco necessário!