O título pode enganar, mas é apenas o nome de uma pequena despretensiosa e real história:
Mudamos de São Paulo, para uma quase pequena cidade do interior, há mais de dez anos.
Pode parecer irreal, mas algumas caixas de papelão da mudança, continuam lacradas. Duvido que contenham qualquer coisa de importante. "Grana" com certeza não.
Estimulado por um e-mail recebido há alguns dias, resolvi tentar encontrar os "Salvo-Conduto" de meus avós italianos, cujas cópias tenho certeza de que estão em alguma daquelas referidas caixas. Não defiro dos idosos teimosos ou persistentes, e fui à luta!
Na primeira das caixas, talvez a mais empoeirada de todas, encontrei uma série de documentos, fotos amareladas, diplomas do curso primário meu e da esposa, dos pequenos… Fiquei admirando a caligrafia do preenchimento e invejando-a.
Encontrei outras coisas, cuja importância o tempo apagou.
Mas, bem dobrada, uma folha de papel pautada, talvez de 50 x 50 cm, escrita com tinta e caneta mosquitinho. Lá estava a árvore genealógica de D.Pedro II completa até a sétima geração. Com locais, datas de nascimento e morte. Algumas pequenas rasuras e observações a lápis.
Como foi parar lá, francamente não sei. Não era minha, embora já a tivesse visto há muitos anos. Surrupiada? Garanto que não.
Frequentei, entre 1955 a 1958, o Ginásio Estadual Alexandre de Gusmão, onde o corpo docente era ocupado por professores… Professores… Berta, Cretela, Ferrari, Angelina e outras jóias do ensino. Havia também o Prof. José Bueno de Azevedo, monarquista ferrenho, que participava inclusive do programa "Desafio aos Catedráticos" se não me engano da rádio Cultura, juntamente com Menotti del`Pichia, Aristóteles Orsini e outros.
Mas o referido professor (de história) tinha como característica principal não se preocupar com o programa escolar da matéria, fatos e datas, que dizia já estarem nos livros. Ele queria que os alunos desenvolvessem a árvore genealógica própria e dava notas mensais ao chamar cada um dos alunos perguntando se tinham algum fato novo a acrescentar em seu trabalho.
Quando algum aluno trazia nova informação ou documento, ele o parabenizava e acrescentava notas às suas avaliações. Quando o aluno nada apresentava de novo, era criticado de forma contundente com termos pesados.
Usava um pequeno óculos e franzia a testa e o lábio superior ao tentar ler alguma coisa. Daí, os alunos o apelidaram de Bodinho.
Fazia questão de ressaltar que era “paulista quatrocentão”, além de repetir constantemente uma frase que hoje estaria perfeitamente atual: "Os amigos do rei serão sempre os primeiros".
Tentava nos ensinar: “Sejam espertos".
Até hoje, lembro-me como martelava repetidas vezes palavras para definir a tal de "pesquisa histórica": “Um nome, uma chave. Uma chave, dois nomes. Um nome… Isto é história, o resto não interessa.”
Nunca soube de alguém que ele tenha reprovado. Mas história, pelo menos eu, nada aprendi.
Tentou de todas as formas ser o paraninfo da nossa turma, mas a maioria não foi "amiga do Rei" e a escolhida foi Da. Angelina.