Hoje vou contar mais um pouco da minha vida de luta e trabalho.
Após deixar a Excelsior Elétrica, fui trabalhar na Camisaria Intercil. Iniciei logo na segunda- feira e minha função era varrer a loja, passar o pano nos balcões parcialmente envidraçados e arrumar a mercadoria nas prateleiras, os proprietários eram os senhores Torghon Nicol e Avedís Demercian. Tinha um colega de serviço de nome Alcides, o Djalma já havia saído da empresa, lá fiquei por mais ou menos um ano.
Tudo ia muito bem, eu até já ensaiava para aprender a me tornar um balconista, passei a me vestir melhor e usar gravata (naquela época acessório indispensável), aprendi a distinguir os tipos de tecidos das camisas (na época a tricoline – pele de pêssego era a mais famosa), começavam a surgir no mercado as sandálias abertas também usadas pelos homens pela sua praticidade. A Intercil foi uma das primeiras a também vender o produto.
Uma manhã vieram entregar um lote das referidas sandálias, o senhor Avedís determinou que as caixas deveriam ser armazenadas no mezanino que circundava toda parte superior da loja. Combinei com o Alcides que eu ficaria na parte de cima e ele iria jogando as caixas para que eu apanhasse e fosse colocando em ordem na prateleira. Quase no final do trabalho o Alcides jogou uma das caixas só que com a tampa virada para baixo. Resultado: apanhei a caixa, mas a tampa se soltou e o par de sandálias caiu sobre a cabeça de um manequim de meio corpo que estava sobre o balcão… O manequim acabou por cair de cara sobre o tampo de vidro, quebrou o "nariz" e também parte da vitrine envidraçada. Tomamos uma “senhora” bronca dos proprietários da loja e fomos acusados injustamente de falta de atenção no trabalho. Um cliente que no momento estava na loja até ensaiou umas palavras em nossa defesa mas nada adiantou, fomos punidos com o desconto do prejuízo em nossos salários, muito embora a loja tivesse um seguro para esse tipo de acidente.
Me lembro até hoje do fato porque o acidente aconteceu exatamente no dia do meu aniversário, eu completava 14 anos! E logo pela manhã o Sr. Torghon havia me presenteado com uma bela gravata toda quadriculada modelo escocês em tecido tipo “rayon”. Meu pai foi falar com os proprietários para relevar o problema, pois o fato ocorreu de forma involuntária mas não teve êxito… Em vista disso, o salário do mês praticamente foi utilizado no pagamento do estrago. Meu pai resolveu que eu não mais seguiria trabalhando na loja, pois julgava uma injustiça o desconto.
A loja existe até hoje, mas agora na Rua Dom José de Barros. Ainda me lembro com saudades principalmente dos quibes e esfihas que a esposa do Sr. Avedis trazia na loja e servia de lanche nas épocas de festas, quando o estabelecimento ficava aberto até as 22h. Aprendi muito com os patrões apesar do ocorrido.
Fiquei desempregado por apenas uma semana, graças a uma senhora que era irmã da namorada de meu tio Zézinho. Fui encaminhado a um escritório de despachos alfandegários que estava precisando de um office-boy. O nome da firma era Despachos Iris Ltda. e ficava na Rua Líbero Badaró, 651.
Por hoje fico por aqui. Aguardem a parte III. Obrigado.