Tristeza, por favor, vá embora, minha alma que chora, está vendo o meu fim…
Na madrugada passada, não sei por que cargas d’água, acordei sem motivo e desprezando o “blá blá blá” do rádio que continuava ligado, como sempre, e entoei para mim mesmo os versos acima. Depois parei, comentei com meus botões, “cada vez mais abestalhado não é seu velhote?” Coloquei a cabeça sobre o travesseiro e continuei dormindo.
Hoje cedo, depois do café matinal, me aprontei e sai para atender a uma consulta com meu oftalmologista. Não sei por que durante toda amanhã senti um nó na garganta, um amargor desmesurado sem qualquer motivo aparente, uma melancolia incontrolável.
Minha memória musical teimava em fazer presente velhos temas musicais e, por diversas vezes, cantarolei:
“Vem chegando a madrugada oi, o sereno vem caindo…”
Ou então,
“Vou fazer a louvação, louvação, louvação do que deve ser louvado…”.
Ia mais fundo e lembrava:
Angústia, solidão, um triste adeus em cada mão. Lá vai meu bloco vai, só desse jeito é que ele sai…
Por diversas vezes olhei à minha volta e percebi sorrisos irônicos. Não me importei. Foi então que, no meio da manhã, ainda no consultório médico, recebi, como se fora um tapa na cara, a notícia que meu coração já pressentia: Morre o cantor Jair Rodrigues!
Entendi a causa da minha angústia, meu amigo Jair tinha se mudado para o andar de cima. Que horror, ainda jovem, tão jovem como eu.
Várias passagens da minha mocidade, das boemias dos anos 60, quando eu, na companhia desse camarada, varávamos as madrugadas ora cantando, ora brincando, ora “caitituando” sua primeira gravação de… O morro não tem vez, e o que ele fez, já foi demais, ou ainda… “Feio não é bonito, o morro existe e pede acabar…”.
Em um dos meus textos memoriais, escrevi um parágrafo sobre a Boca do Luxo Paulistana e que me permito transcrever:
O porteiro do Havana era o João e muitas vezes ele, eu, o Gaguinho (ritmista famoso), o Nino (baterista das noites paulistanas) e o Jair Rodrigues (antes de gravar o primeiro disco e nos levar com ele para caitituar nas casas noturnas) ficávamos até altas horas da madrugada, jogando conversa fora, esperando o relógio marcar quatro horas para levarmos a mulherada para casa.
Em frente ao Havana tinha sido recentemente inaugurada uma casa que pretendia ser de alta linhagem, o Quitandinha. Casa muito bem decorada e apresentando magníficos shows afro-brasileiros, onde o Gaguinho tinha participação ativa.
É Jair, quantas vezes falei que você era a água gelada que caia inesperadamente em nossas acaloradas madrugadas, onde todos bebiam seus drinks e você bicava um cafezinho com leite ou um chocolatezinho (nunca te vi tomar um gole sequer de bebida alcoólica, ou mesmo tragar um cigarro).
Você era, realmente, a pureza da boemia, o cristal sonoro das madrugadas. E hoje, que maldição, foi-se para outras paragens. Foi levar sua alegria para os amigos que lá estavam à sua espera.
Que Deus ilumine a sua passagem amigo, como iluminada foi a sua vida terrena. E quando minha hora chegar cachorrão, espero te reencontrar na porta de entrada cantando:
“Deixa que digam, que pensem, que falem,
Deixa isso prá lá,
Vem prá cá,
O que é que tem…
Eu não estou fazendo nada,
Você também,
Faz mal bater um papo
Assim gostoso
Com alguém?”.