Eu acho que já confessei anteriormente que a minha família, por parte do meu falecido pai, era totalmente torcedora do Palestra (depois Palmeiras), meu tio Zézinho trazia sempre o jornal "O Esporte" e todo mundo em casa discutia as notícias do dia.
Houve uma passagem que até hoje guardo na memória e chego até a rever a cena: na sala da casa de minha avó Maria estavam reunidos meu avô Luiz, meus tios Zézinho e Luiz, o tio Nando, irmão de minha avó, e o Santo, filho do tio Nando; eu ficava em um canto terminando a lição do grupo escolar enquanto eles conversavam, pois eu não tinha permissão para participar da conversa, essa casa ficava na Rua Lucas Obes nº 473 (ainda existe lá mas com outra aparência).
Tudo ia muito bem, o papo seguia animado, a coisa desandou quando meu tio Olindo chegou com a notícia que o jogador Dacunto, centromédio do , havia sido suspenso pelo Tribunal de Penas por ter sido advertido no jogo anterior, o próximo jogo do Palmeiras seria no domingo contra o São Paulo F.C. e caso o Palmeiras fosse o vencedor seria já o Campeão Paulista do ano (se não me falha a memória foi em 1944); a família inteira se revoltou, pois muitos pensaram que o São Paulo colaborou para que o tribunal agisse com rigor, o Dacunto era um excelente jogador e com certeza a sua ausência iria causar uma ruptura no sistema defensivo do Alviverde.
Finalmente chegou o dia do jogo, naquela época meu avô ainda não tinha rádio, me lembro de que fomos ouvir a transmissão da partida na casa do Tio Nando, lá na Rua Agostinho Gomes, quando o locutor anunciou a escalação das equipes a gritaria foi geral, o treinador (não me lembro do nome), escalou o meia-direta Waldemar Fiume no lugar do Dacunto, pois não havia outro no momento.
Pois bem, o Fiume jogou uma partida memorável, o Palmeiras venceu por 3×1 e se tornou campeão paulista daquele ano, lembro-me ainda que os gols foram marcados por Caxambu, centroavante do Palmeiras (marcou 2), o outro foi feito pelo Villadoniga, o gol do São Paulo se não me falha a memória foi marcado pelo ponta-esquerda Pardal.
Na segunda-feira meu tio Zézinho trouxe o jornal de esportes e recortou a parte referente à "ficha técnica" do jogo e colou na capa do meu caderno escolar para que eu fosse memorizando o nome dos jogadores (muitos deles eu já conhecia por meio da coleção de figurinhas das "Balas Futebol", o Palmeiras jogou com Oberdan, Caieira e Junqueira, Og. Moreira, Waldemar Fiume e Gengo, Gonzales, Villadoniga, Caxambu, Lima e Jorginho. O São Paulo jogou com King, Piolin e Virgilio, Zezé Procópio, Rui e Noronha, Luizinho, Sastre, Leonidas, Tim e Pardal (me perdoem se eu errei algum nome, mas eu acho que acertei).
O que mais me marcou nesse jogo foi quando se ouviu no rádio o coro da torcida do Palmeiras entoando o canto: "Com Dacunto ou sem Dacunto, ê, ê, ê, eu ganho”, ainda posso rever as fisionomias de felicidade de meu pai e de meus tios, jamais esquecerei esses momentos vividos em um ambiente familiar de harmonia, paz e muita alegria.