A fábrica

O tempo passava com rapidez estonteante na Rua Independência do meu Cambuci. Pelo menos para quem era criança naqueles anos sessenta. Os ônibus faziam o trajeto de Pinheiros ao Sacomã, passando por ali, em mão única, exibindo uma fumaça ainda não tão sufocante pelo carburador.
 
A pé íamos, vez ou outra, à fábrica.
 
O momento mais marcante da minha visita à fábrica foi no final de 1962 quando, pela primeira vez, os trabalhadores puderam contar com o décimo terceiro salário.
 
Sorridente e com o semblante aliviado, a minha mãe recebeu o benefício naquela tarde tão próxima ao Natal e deu um pequeno valor para mim e o meu irmão. De imediato, a decisão de irmos à fábrica tomou conta do nosso imaginário ainda tão dócil e carregado de inocência.
 
E era uma visão celestial, literalmente “uma promessa de vida no coração”. Do final daquele corredor escuro e de pouca ventilação vinha um odor inebriante, mágico, característico do chocolate derretido em banho-maria. Íamos, aos poucos, nos afastando do barulho das buzinas, das brecadas rápidas dos carros, do atravessar a rua a passos ligeiros na tentativa de se evitar um desastre maior. E, ao mesmo tempo, nos aproximando de uma outra possibilidade de viver: o mundo da paixão.
 
Eu fui descobrindo que, com o chocolate, tudo era possível. O sabor único, inconfundível, a embalar um tempo de dificuldades sem conta, dadas às enfermidades crônicas do meu pai. Acho que a alma lhe doía mais que o estômago. Diuturnamente. A nossa vida ia se acabando com isso. A cada dia o meu pai ia morrendo um pouco. Quantas vezes fui ao colégio sem saber se, na volta, ele ainda estaria vivo. O chocolate seria o nosso conforto espiritual, um ombro caloroso e mudo, o nosso oxigênio para um tempo que não deixou nenhuma saudade.
 
Foi o chocolate que acompanhou a evolução da humanidade desde 1500 a.C. Considerado sagrado pelos maias e astecas, a bebida foi levada para a Europa pelos colonizadores espanhóis, que, evidentemente, se achavam os novos deuses do lugar a ser dominado. Na Espanha, o líquido era consumido por sacerdotes e pela nobreza. Quando em 1519 o conquistador Hernán Cortez chegou ao México, o imperador Montezuma o recebeu com honras. Apreciador do chocolate, Montezuma ingeria a bebida em copos de ouro. Esse copo era lançado fora após o último gole. Isso para mostrar que a bebida valia mais que o tão cobiçado metal.
 
Anos mais tarde, Cortez aprisionou o imperador e, gradualmente, conquistou o México para o rei da Espanha. Quando retornou para a metrópole, em 1528, Cortez levou grãos de cacau para o rei, apresentando o produto naquela forma líquida. Por um século a Espanha teve o monopólio do comércio de grãos de cacau, graças às plantações ordenadas por Cortez.
 
Nesse meio tempo, a bebida começou a ficar conhecida em outros países da Europa Ocidental. Diversos países europeus passaram a plantar cacaueiros em suas próprias colônias tropicais onde o clima era favorável.
 
Em 1700 as "Casas de Chocolate" começaram a competir com as "Casas de Café" em Londres. Uma xícara de chocolate quente não era mais um artigo de luxo. O nascimento e o desenvolvimento das indústrias tornaram possível a produção em massa, além de tornar os produtos mais baratos, e o chocolate ganhou espaço nesse contexto.
 
Em 1875, um fabricante suíço criou uma barra de chocolate ao leite, usando leite fresco, sendo o mesmo, mais tarde, popularizado pelo farmacêutico Henry Nestlé.
 
E eu respirava aquela fábrica! No balcão simples, o atendente nos deixava experimentar algumas das preciosidades expostas. Sem sombra de luxo, o chocolate produzido em poucas variedades de formas, dava a entender se tratar de uma pequena empresa familiar. Quem sabe, uma família de operários natural do próprio Cambuci…
 
Poucas coisas na minha infância marcaram tanto como as nossas breves passagens pela fábrica Toy. Eu nem imaginava que seria possível, um dia, eu aprender a lidar com essa magnífica arte de produzir.
 
Anos depois, me deparei com uma outra fábrica, na saída da Cidade Universitária. Comprei ali algumas vezes, mas o romantismo da Toy, a longa espera para poder entrar ali, o sabor paradisíaco, o encontro com o melhor da vida… Fica com aquela fábrica da Rua Independência do meu Cambuci.
 
Frequentar uma fábrica de chocolate na infância, dura infância de solidão, dores e incertezas, é aprender a esperar. Esperar longas horas, meses, anos até para se ter a certeza de que a vida sempre vence. E que todas as primaveras terão o sol a brilhar para todos aqueles que se prestam a viver em paz.