Desde menina aprendi a apreciar e respeitar os mais velhos. Foi através da convivência com a minha avó que passei a entrar nesse universo de imensa riqueza e saber refinado. Eu amava profundamente a minha avó. Foi um amor construído com alguma lentidão.
Eu admirava nos mais velhos a gentileza, a educação, o respeito para com os outros e para com as coisas da vida. Alguns falavam sobre as dificuldades da infância. Da saída do interior para uma São Paulo de ainda poucos automóveis. Outros relatavam algumas memórias da guerra. Dos tempos dos veículos movidos a gasogênio, das dificuldades em comprar o pão, o açúcar, a carne, as filas infinitas para se comprar um quilo de qualquer coisa. E sempre o trabalho exaustivo para que os filhos pudessem estudar. Isso é glorioso!
Com amor, eu via o tio Pedro, com o seu chapéu um tanto puído e as roupas desgastadas pelo tempo. Nunca o vi de mau humor e sempre disposto a jogar sua canastra. Impossível dizer o quanto aprendi com todos eles, mas a persistência para o trabalho, o distanciamento da preguiça, o respeito ao próximo, a valorização de tudo o que se tem, o cuidado com as palavras e com o sentimento alheio, tenho certeza, aprendi com eles.
Tive o privilégio de raramente conviver com alguma pessoa idosa de humor duvidoso, de pouco saber ou de angústia encravada nas retinas fatigadas. E aprendi também a dar-lhes atenção, a tentar compreender seus pensamentos, suas filosofias de vida, suas limitações, as saudades.
Certamente, é cada vez mais difícil se tornar idoso. Com a liquidez das relações, com o apego desmesurado à tecnologia pelas novas gerações, o deslumbre pelas coisas do mercado, os interesses mais imediatos acabam deixando a conversa, a empatia e o entendimento para depois. Pior: banalizando-se qualquer possibilidade de algum diálogo enriquecedor.
Dói na alma perceber de quem quer que seja um ar de desprezo ou mesmo de desatenção a quem tem uma longa história. A vida passa, inevitavelmente, pela história construída por eles.
E dói também – e muito – quando as decepções acontecem. Para mim é como se um velhinho não pudesse errar, dada a sabedoria acumulada ao longo de décadas.
E eu subia, a pé, a Rua Manoel Jacinto, na minha Vila Sônia. Rua íngreme e longa aquela e que muitos esperam pelo ônibus que, segundo vários antigos moradores , demora muito a passar.
No alto da rua, um senhor aparentando uns 80 e tantos anos, sentado num banquinho defronte uma casa para alugar. Ele era o vigilante do imóvel. Cansada pela subida, parei para conversar com ele por alguns minutos. Resolvi dar-lhe um pouco de atenção. Imaginei que não era nada cômoda aquela situação, sentado em um banco sem encosto, em um calor abrasador. Mas eu não percebi a malícia quando ele perguntou se eu era casada.
No dia seguinte, saindo da padaria, dei de cara com o velhinho. Sorri e disse que já estaria de volta para Florianópolis. Com um sorriso, disse um “até logo” ou coisa parecida. Eu jamais iria imaginar o que estava para vir: uma cantada muito da sem-vergonha e me pediu um beijo na boca.
De súbito, virei as costas sem dizer palavra e confesso que a minha raiva transbordou.
Eu nunca admiti galanteios vulgares! Principalmente porque não dou motivos. Eu somente havia lhe dado alguns minutos de atenção em uma conversa trivial. Também jamais admiti que alguém viesse, mesmo indiretamente, humilhar o meu marido que, aliás, é uma das mais íntegras e respeitáveis pessoas que eu conheço.
Posteriormente fiquei muito envergonhada da minha reação. Resolvi me vingar com categoria, em uma crueldade inimaginável. No dia seguinte, passei propositalmente defronte ao seu banquinho. Ele me chamou. Eu respondi:
– O Sr. conhece a Vera? Eu sou a irmã gêmea dela.
– É? Onde ela está?
– Eu não queria lhe dizer senhor, mas ontem ela chegou em casa muito contente.
– É?
– É que ela tem um hábito muito estranho. Ela adora matar velhinhos e ontem ela disse que escolheu um por aqui, nessa rua mesmo, e que iria entrar em ação hoje a tarde. Nós resolvemos interná-la de novo, porque ela já foi presa várias vezes por esses assassinatos…
Não sei por que, mas nunca mais vi o velhinho da Manoel Jacinto…