O ônibus da linha que faz o itinerário Praça da Sé à Zona Leste tinha como cobrador um sujeito pitoresco, bom cara, simpático, mas de poucas palavras que mais parecia uma caricatura saída de uma anedota. Conhecido pela maioria dos passageiros, era carinhosamente chamado por Nini, cujo crachá estampava Nicanor da Silva.
No início de minhas viagens, pensara até que fosse maluquinho. Das poucas vezes que ouvira sua voz percebera que além da gagueira fazia caretas e contraia os olhos. Quando era necessário comunicar-se com o motorista, batia com uma moeda em um canto qualquer e acionava as mãos fazendo expressões faciais que o deixavam com uma aparência para lá de grotesca.
Dado ao cotidiano, quase sempre as mesmas pessoas no coletivo, seus movimentos e suas poucas palavras passavam despercebidos, já estavam banalizados, tanto que ninguém se importava com suas ações.
Em uma ocasião, um fato surrealista se desenrolou. Ao passar pela catraca um passageiro, pelo aspecto era novo no trajeto, apresentou uma nota de cinquenta reais, deixando o cobrador exaltado. A partir daí travou-se um diálogo fora do comum. Nini pergunta ao passageiro:
– O se-se-senhor na-ão te-tem tro-tro-troca-ca-ado?
– Nã-não, te-te-tenho na-não. – também fazendo caretas – Só-só só te-te-tenho essa no-no-ta. Responde o outro – Só – só-só.
– Ta-tá- tá que-que-rendo me-me gozar, tá-tá? – retruca Nini.
– Vo-vo-cê é-é que-que tá-tá me-me me imi-imi-tan-tando – responde o passageiro
– Pa-pa-pare de me-me re-repetir. Eu vo-vo-vo dá-dá uma po-po-porrada, So-so gago, mas na-não so-so otário – grita Nini.
Aqueles momentos pareciam transformar-se em motivo de chacota para os demais, o que perpetuava a dificuldade e aumentava o constrangimento de ambos. Antes que partissem para as vias de fato, um senhor próximo à catraca com ar de intelectual se levanta e calmamente intervém dirigindo-se ao passageiro:
– Olhe aqui meu rapaz, não seja mal educado. Pare de arremedar. Respeite as condições de um trabalhador. Saiba o senhor que ele é disfêmico. (1)
– Eu nã-não tô-tô arre-arre-me-me-dando – respondeu o passageiro – Eu so-so ga-ga-gago, se ele é-é fê-fê-fê. Da – ddane-. Se-se tem fi-fi-mose, ele que ope-ope-opere.
(1) Nota do Autor: Além de gago, o indivíduo que apresenta disfemia recebe o nome de disfêmico, tartamudo, balbo (de balbuciar) ou tardíloquo.