Esses caminhos percorridos são apenas detalhes de uma época que passou e se eternizou na vida como tempos românticos. Dezesseis anos, essa era a idade cronológica dele em 1955. Ele ainda tinha vinte cruzeiros no bolso da calça. E como esse dinheiro era a sua única fortuna, segurava com a mão direita fechada, dentro do bolso da calça de brim.
Domingo era dia de matinê no cine Nacional da Lapa. Agora não era nada mal descansar o corpo à sombra do muro em frente ao Cine Nacional, no bar da esquina. Pegou em um graveto de árvores e desenhou no único pedaço de terra no chão da rua um coração com o nome da moça eleita: “Maria Oneide”. As moças passavam pela calçada da Rua Clélia com seus vestidos rendados, engomados, farfalhando a seda ao sabor do vento brando.
Passaram enfim pelo sultão e deixou-o todo assanhado, sentado no tamborete na porta do bar. Arriscou um “fiu fiu”, mas não colou, elas não deram a menor bola para ele. Efetivamente aquele domingo não era seu dia de sorte. O sapato era novo, tinha comprado na semana passada nas Casas Alegria, na Rua Cincinato Pomponet. Nenhum carro de boi chiava tanto como aquele sapato. Não há coisa pior que incomoda mais, do que o sapato novo chiando. Viu uma poça d’água barrenta na calçada e meteu de propósito o pé dentro dela. Aquilo com certeza iria lubrificar e amaciar o solado.
Ouviu os risos das moças. Foi andando devagar, batendo a biqueira dos sapatos no piso duro da calçada. Atravessou a rua do outro lado. Deu uma olhada disfarçada nas pernas de anjo da Maria Rita. Estava vestida a seu gosto. Aquele foi o primeiro sorriso do dia que havia ganhado. Arriscou:
– Cuidado, esse sorvete é uma fábrica de resfriados. De resfriados só? Não! Prenúncio também, de uma pneumonia.
Ela riu da piada. No entanto, o farmacêutico da esquina da Rua Barão de Jundiaí com a Rua Guaricanga tinha-lhe dito que a pneumonia poderia ser provocada pelo quente/ frio da temperatura e do sorvete.
O boteco em frente ao Cine Nacional começou com uma porta só. Agora já tinha duas. O salão de sinuca tinha sido ampliado. Três mesas novinhas, um banco de madeira no canto esquerdo do salão reservado para a assistência pública. Ali, costumava desfilar os ases do “snooker”. Havia um tal de “Boca”, que morava na Lapa e que era amigo pessoal do Walfrido Rodrigues dos Santos, o popular “Carne Frita” rei do “snooker”, considerado imbatível, que costumava frequentar o “Maravilhoso”, na Avenida Ipiranga, quase esquina da Avenida São João. O “Boca” também era imbatível na sinuca. Só perdia as partidas depois de beber dez cervejas, quando os olhos ficavam edemaciados, injetados, vidrados pelo poder do álcool.
Meninas de braços enlaçados passeavam pela calçada da Rua Clélia. No carrinho de pipocas do Hélio Anão, estacionado ao lado da porta do botequim, a chama do gás piscava para elas. O cheiro da pipoca, no óleo queimado dentro da panela amassada, apitava quando o milho espocava. O Dungão apareceu na porta do bar. Viu quando a Alzira entrou no cinema. No primeiro plano, depois da grande porta de aço, estava a bilheteria redonda, onde havia uma vasta fila de adolescentes ao redor. O filme principal exibia a comédia “Cantinflas”, na época recorde campeã de bilheteria. No intervalo depois do trailer do próximo filme, aparecia o seriado “Nioca a Rainha da Selva”. Era uma maneira inteligente de a Cia Serrador promover o assento cativo dos adolescentes de plantão em todos os domingos.
O Nanico havia reservado oito poltronas para sua turma. Colocou o lenço sobre duas poltronas, usou mais três lenços, guardou mais seis lugares. Havia se engraçado com a Maria Silvia, sobrinha do comediante Mazzaropi. Fazia dois anos que a Rosa Maria, amiga íntima da Maria Silvia, estava de namorico com o “Linguiça”, desenhista de arte da Cia. Melhoramentos.
Durante a exibição do filme, o Dan José Camara (figurante infantil no filme “O Cangaceiro), com o Milton Ribeiro, tinha atingido o auge da carreira artística. Aquele filme lhe rendeu muita popularidade e dinheiro. Tinha saído da miséria e casou-se com a Zélia e teve cinco filhos. Por que será que ele não era mais visto todos os domingos na porta do Cine Nacional na Lapa? É que ficou famoso e rico e resolveu sumir.
Dona Anna, mãe da Gioconda, pregou um beliscão no bracinho magro da menina. A Gioconda perdeu toda a compostura e começou a chorar. Aquele beliscão foi doído. Um escândalo. Só por causa de um olhar e uma piscadela que a menina tinha dado para o Miguel, ex-funcionário da fábrica de meias Alba, que ficava na Rua Vespasiano. Quando chegou em casa, na porta de entrada, levou um safanão da mãe; depois um tabefe, depois foi a vez das chineladas. Por que tanta rigidez no castigo pela conduta da filha? Era costume na época prezar pela boa moral. Porém, não precisava tanto. Afinal, a moça nada fez de muito grave.
O tempo cronológico desta crônica é bastante breve. O Nicola passou pela Graça sem a ver direito. Foi até a Praça Cornélia e voltou em um pé só. Depois da Rua Duílio, avistou definitivamente a moça. Estava parada na esquina com a Flávia, irmã da Silvia. Ele foi diminuindo o andar. Alguma coisa lhe dizia que aquele era o momento exato de conquistá-la. Ficou confuso. Primeiro teve curiosidade de falar-lhe, depois, uma espécie de despeito, de ciúmes, de orgulho ferido de qualquer coisa assim. Ficou sabendo que ela lecionava Português no ginásio Estadual Anhanguera. Acabou indo embora sem nada falar.
O Quito trazia na lapela uma bandeirinha do Clube Atlético Nacional da Rua Comendador Souza, próximo à Vidraria Santa Marina, no bairro da Água Branca. A Ofélia trabalhava naquele lugar na seção de embalagens de vidros. Tinha marcado com ela que se encontrariam no próximo domingo, às 5h da tarde na Rua Doze de Outubro, em frente à loja Ducal. Esperou quase meia hora por ela e nada. Olhou para o relógio de pulso: 17h45.
Finalmente ela apareceu. Tinha subido um pedaço da Rua Doze de Outubro e estava um tanto ofegante. Pareceu-lhe estar nos seus vinte anos de idade e ser aquele o seu primeiro encontro de amor. Mas só Deus sabe se aquilo era um encontro de amor. Depois das apresentações, foram de mãos dadas na sessão das 6h da tarde, no Cine Tropical, na Rua Roma. A Ofélia e o Quito estavam realmente muito felizes. Esses foram alguns dos poucos caminhos percorridos, durante o tempo da mocidade, no romântico bairro operário da Lapa.