Tamancos nos pés

A família era grande e minha tia Maria, irmã de minha mãe, vinha da Ponte Rasa ajudar nos afazeres de casa. Tudo tinha que ficar limpinho, os quartos, a sala, as escadas, a cozinha, o quintal, o porão e até a calçada que circundava a nossa casa, na Penha. Minha mãe sempre teve esse costume de fazer faxina geral em casa.
 
Quando chegava o momento de lavar o chão, lembro que minha tia trocava os chinelos pelos tamancos de madeira que podiam molhar, não escorregavam, não cheiravam mal e eram de grande durabilidade.
 
Eu e meus irmãos adorávamos ficar descalços e nos esbaldar naquela água com sabão cheia de espuma espalhada pelo chão do quintal. Era uma tremenda farra principalmente quando podíamos pegar a mangueira e esborrifar água em todos os lugares. A tia Maria sempre demorava mais que o necessário só para contentar os sobrinhos e garantir um pouco mais de diversão.
 
Muitas vezes, nos finais de semana, eu pegava os tamancos da minha tia para ficar andando no quintal de casa. Eles eram grandes demais para os meus pés e os dedos quase saiam todos para fora da tira, mas era uma delicia andar para lá e para cá e fazer o toque-toque no chão. Quando eu os colocava nos pés para brincar, me sentia como se eu estivesse brincando com os sapatos das princesas.
 
Antigamente, em nossas brincadeiras, nos contentávamos com as coisas mais simples e modestas, mas tínhamos uma imaginação grande e nunca faltava a criatividade.
 
Com o passar dos anos, os tamancos foram ficando mais sofisticados, feitos em tamanhos menores e usados para sair e combinar com as roupas. Lembro-me de um dia comprar tamancos até para minhas filhas, havia um mais lindo que o outro.
 
Sempre esperávamos a tia Maria com alegria porque, além de ajudar minha mãe, ela tornava nosso dia mais feliz. Ela sempre foi muito querida por todos nós.
 
Que saudades da tia Maria, de tamancos nos pés, espalhando a água e sabão pelo chão.