Uma vida, muitos mestres

Minha professora de primário ainda vive.
 
Dona Eunice.
 
Ainda conserva aquela alegria, coisa que mesmo com a enfermidade tem um sorriso e um batonzinho nos lábios.
 
Anda tão devagarzinho, não tenho certeza de quantos anos ela tem.
 
Esteve muito doente, como nunca se casou vive só.
 
Mas sua casa é impecável. Tem um enorme quintal, de vez em quando passo para lhe dar um alô.
 
Meus mestres ao longo da vida foram muitos, muita coisa me ensinaram, alguns foram intolerantes, outros de uma intensa bondade.
 
Mas hoje até dos intolerantes eu tenho saudade.
 
Madre Amélia nunca sorria, mas um dia me abraçou, e tenho ainda o seu perfume.
 
Madre Cláudia era um anjo de bondade, até brincava de queimada.
 
E era disputada, todas queriam estar perto dela.
 
Certo dia me obrigou a comer um prato cheio de batata- baroa, eu detestava, mas aprendi; enquanto não comi o que foi colocado no prato não sai da mesa.
 
Outro dia derramaram uma sopeira no meu colo, ela não ficou brava, porque eu não tinha prestado atenção em quem me passava a sopeira.
 
Ela era professora de Geografia, eu sempre tirava notas boas, mas também prestava atenção e gostava de desenhar os mapas bem direitinho.
 
Madre Eufemia, professora de matemática, “ah” dessa eu morria de medo, a melhor nota era sete, e para tirar um cinco me levantava muito cedo, e eu estudava e rezava porque a prova dela era fogo.
 
Madre Domitilla, Madre Maria, e outras madres.
 
No banco haviam os encarregados, não me lembro dos nomes. Havia um chefe, muito, mas muito, bonzinho e quando errava algum serviço me chamava e explicava. Borderô eram duplicatas e certa vez digitei IOF, que quase me custou o emprego.
 
Mas quando havia cortes nos funcionários, eu brincava que era uma pedra que não passava na peneira; e não passava. Deus sempre me ajudava.
 
Pudera, sempre estava disposta a fazer horas extras, Carnaval então, todo mundo voltava cansado e eu tinha muitas horas extras para receber.
 
Hoje em dia as pessoas mudam de emprego como mudam de roupa, por qualquer besteira já estão fazendo tudo de errado para serem mandados embora, tem seguro desemprego, e tudo o mais.
 
Sempre ensinei minha filha a deixar sempre uma porta aberta, porque a gente nunca sabe as voltas que a vida dá.
 
Ser honesto, dedicado e sincero não é uma virtude e sim obrigação.
 
Estou feliz porque ela aprendeu a lição, e agora vou me deitar na rede, tirar minha sexta, porque tenho direito.
 
E meu pensamento viaja, Vila Mariana, Ipiranga, Praça da República, Vila Madalena. Tem coisa melhor do que viajar na rede?