Uma tarde de gás na João Mendes

Nasci em 1969 e nos anos 70 era ainda Ditadura no Brasil. Vivenciei um beliscão inesquecível da minha mãe, quando disse algo em "alto e bom tom", na rua que ela me fez prometer nunca mais repetir. Vivenciei também quando criança uma greve selvagem de bancários com bombas de gás lacrimogêneo, portas de vidros quebradas e incêndios.

 

Estávamos nós três na rua, meu irmão pequeno, de velocípede. De repente, correria. Entramos em uma garagem subterrânea para nos proteger do quebra-quebra. Havia mais pessoas que ar para respirar. Algumas pessoas passavam mal, os idosos principalmente. Faltava água e o cheiro das bombas de gás infiltrava no recinto. Ficamos umas cinco horas dentro desta garagem, até percebermos que a demonstração havia terminado. Quando saímos, vimos vidros estilhaçados e ruas vazias de medo. Eu era uma criança, mas conheci de perto a fúria da indignação.