São Paulo, de tão grande e grandiosa, só foi vista por mim na sua exuberância, quando dela me distanciei. Precisei passar alguns anos fora, para percebê-la: gigante. Nasci "paulistana da gema", o centro da cidade de São Paulo foi o meu "playground". Carrego em mim cada rua, cada prédio, cada esquina, cada face anônima amanhecida indo para o trabalho, para a escola. Carrego a pressa, carrego também o medo… Este mesmo medo quem me criou e fez-me forte, nesta cidade de milhões. Quem aprendeu a viver em São Paulo, vive em qualquer lugar, é uma verdade.
Estou há quase quinze anos em Munique, na Alemanha. Não houve um dia sequer em que não li um jornal do Brasil, uma notícia. Acompanhei de longe o "milagre econômico", mas sempre com um pezinho atrás… Afinal, quem viveu Plano Cruzado, Plano Cruzado Novo, Plano Real e por aí vai… Tem de ter o pezinho atrás! Quando vejo ainda o meu salário escrito com cifras de milhões, dou risada.
Sim, já fui milionária! Já cheguei a ganhar 22.000.000,00 em um mês. O problema foi que tudo também custava milhões… Inflação! Minha vinda para a Europa foi exatamente quando introduziram o Euro. Os europeus estavam excitadíssimos com a novidade, me deixavam até irritada. Não achava nada de extraordinário, porque será? Pois bem, as lembranças se misturam, um pouco de São Paulo, um pouco de Brasil, um pouco de mim.
Glicério. Escola Duque de Caxias. Igreja Nossa Senhora da Paz. Praça da Sé. Rua Senador Feijó. Liberdade. Colégio Roosevelt. Feirinha de Domingo. Praça João Mendes. Padaria Santa Tereza. Av. 23 de Maio. Av. Brigadeiro Luis Antônio. Longa… Bela Vista. Bairro charmoso. Bixiga. Café Piu-piu. Mooca. Festa de San Gennaro. Cambuci. Clima de interior. Aclimação. O parque. Av. Paulista. O Sebo, Cinema e o Café. Masp. Feirinha. Consolação. Sujinho. Rua Maria Antonia. Minha casa por mais de 10 anos. Mackenzie. Senac. Sesc. Feira de domingo na Praça Roosevelt. Pastel e caldo-de-cana.. Praça Boim. Faap. Santo Amaro. Largo Treze. Interlagos. Autódromo. Brooklin. Borba Gato. Adolfo Pinheiro. Estação da Luz. Mercado Municipal. Parque Dom Pedro. Prefeitura.
Estou há mais de 10.000 km de distância e o Atlântico me separando da minha terra amada, e mesmo assim, deitada na minha cama, consigo mentalmente caminhar pelas ruas, ver seus edifícios, suas praças… Sou um GPS vivo! Como escrevi antes: nenhuma cidade no mundo toma no meu coração tamanho lugar. Tenho orgulho da minha cidade, com todos os seus defeitos, porque sei muito bem das suas qualidades. Já escrevi poemas a São Paulo. Já fiz críticas com olhar estrangeiro e também declarações de amor. Vou continuar fazendo, vou continuar falando o que eu acho certo ou errado. Não vou omitir o que eu penso, mas vou continuar amando São Paulo. A minha história é feita dos laços que ainda estão aí. Eu vivo aqui, tão longe, mas ainda enrolada ainda nestes laços de amor, que tão pouco a distância ou tempo conseguem apagar.